Água Funda, de Ruth Guimarães
Na história o narrador conversa com um moço.
Exploração e desigualdade persistem, mantendo a estrutura colonial no Brasil.

“Água Funda”, escrito por Ruth Guimarães, é um romance orgulhosamente negro e caipira que retrata a vida no campo brasileiro sem cair em estereótipos ou idealizações. A autora, tendo vivido e crescido em Cachoeira Paulista, utiliza sua própria experiência e conhecimento como mulher negra e caipira para criar uma história marcada por uma linguagem oral e descrições detalhadas do ambiente natural. A obra, escrita em forma de conversa entre o narrador e um moço, apresenta pistas que sugerem que o narrador é alguém da comunidade que possui tanto conhecimento da linguagem caipira como educação formal.
A composição fragmentada e de “colcha de retalhos” do romance foi original e não foi bem recebida pela crítica na época. No entanto, essa forma de escrita reflete a própria vida e experiências da autora, que juntou “causos” que escutava e vivenciava. Através dessa composição única, a obra revela a estrutura colonial que permaneceu no Brasil, mesmo com as mudanças de época e de regime político.
“Água Funda” apresenta dois momentos temporais distintos: a primeira parte se passa antes da abolição da escravatura, na fazenda Olhos D’Água, enquanto a segunda parte ocorre nas décadas de 1930 e 1940, na cidade de Pedra Branca. Embora haja um salto no tempo, a exploração do caipira e a desigualdade persistem, revelando a manutenção da estrutura colonial no Brasil.
Um trecho do livro é especialmente relevante para as notícias atuais sobre casos de trabalho análogo à escravidão: um forasteiro chega a Pedra Branca para recrutar trabalhadores para a abertura de estradas no sertão, prometendo altos salários e custos cobertos pela empresa. No entanto, os trabalhadores são submetidos a condições abusivas, sendo pagos com vales aceitos apenas nas lojas da Companhia, que cobravam preços exorbitantes. Essa história reflete a exploração e injustiça que ocorrem mesmo depois da abolição da escravatura.
O/a narrador/a de “Água Funda” atribui os tristes destinos dos personagens a uma praga lançada pela escravizada Joana, que pode ser interpretada como uma metáfora dos 300 anos de escravidão. O romance critica tanto a escravidão quanto as consequências do pós-abolição, demonstrando que as mesmas injustiças persistem até os dias de hoje.
Em suma, “Água Funda” é um romance único que traz à tona a vida caipira no Brasil, através de uma narrativa oral e uma composição fragmentada. A autora, Ruth Guimarães, utiliza sua própria experiência como mulher negra e caipira para criar uma obra que critica a estrutura colonial e a exploração que persistem mesmo depois da abolição da escravatura. Encontre aqui
luizbucalon
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