• Minha Poética

    ​O TRILHO AMARGO DO REGRESSO

    O ônibus é um bicho de ferro e cansaço
    que arrasta Maria pelo ventre da cidade.
    Nas mãos, o cheiro do sabão e do asfalto,
    no peito, a pressa de voltar à sua metade,
    de chegar onde o lar é o único abraço.

    ​O balanço das rodas desenha o destino,
    um reencontro armado no acaso do assento.
    Lá está ele: o rosto que foi seu menino,
    o homem que um dia foi seu alento,
    agora marcado por um novo tormento.

    ​O riso que foi mel virou navalha.
    O abraço que era ninho, agora é desterro.
    Maria vê o ex-esposo na margem, na falha,
    e o amor, esse laço de carne e de ferro,
    se perde no grito que a turba estraçalha.

    ​”Assaltante!”, grita o medo de olhos claros.
    “É ele!”, grita o sangue de Maria no chão.
    Mas a voz da justiça tem modos raros
    de confundir o afeto com a contravenção,
    e o silêncio se impõe entre tiros e amparos.

    ​Ficou na calçada o corpo-sentença,
    o pecado de ser, de estar e de amar.
    Maria tombou sob a sombra densa
    de um mundo que não sabe como escutar
    o som de uma vida que a dor recompensa.

    Luiz Carlos Bucalon

    (Baseado no conto Maria, de Conceição Evaristo)

  • Minha Poética

    O INVENTÁRIO DO MEDO

    O sol deitou-se cedo no morro,
    mas não houve reza para o descanso.
    Zaíta, no susto do metal que ruge,
    deixou a boneca de pano no canto,
    com os olhos de botão fitando o escuro.

    ​Havia um castelo de latas no meio da sala,
    um reino erguido entre o café e a carência.
    Mas o som que veio não era de brincadeira,
    era o trovão seco que não traz chuva,
    só o silêncio pesado da ausência.

    ​”Guarda os brinquedos, menina!”
    O grito da mãe era um escudo de papel.
    Mas o tempo parou na fresta da porta,
    e o lúdico foi atropelado pelo real,
    deixando a infância exposta, descalça e torta.

    ​Ficou o carrinho sem roda na poeira,
    ficou o sonho de pano, sem dono, no chão.
    Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos,
    porque a vida, em sua pressa guerreira,
    esqueceu de guardar o seu coração.

    ​As mãos pequenas, que deviam colher o lúdico,
    conheceram cedo o peso do chumbo e do luto.
    No chão da favela, o brinquedo esquecido
    é o mudo retrato de um riso interrompido,
    de um amanhã que se fez absoluto.

    Luiz Carlos Bucalon

    (Baseado no conto Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos, de Conceição Evaristo)

  • Minha Poética

    A FLUIDEZ DA HERANÇA

    O Rio que Corre no Olhar
    ​Procurei no tempo a cor exata,
    No brilho baço da memória antiga,
    A tonalidade que o destino maltrata
    E que na face da mãe se abriga.

    ​Seriam verdes, como a mata virgem?
    Ou azuis, da cor de um céu sereno?
    Qual seria a vertente, a origem,
    Daquele olhar, por vezes, tão pequeno?

    ​Não era o mar, em sua fúria vasta,
    Nem a lagoa em seu silêncio fundo;
    Era uma cor que a própria dor afasta,
    Um brilho que carregava todo o mundo.

    ​Vi, enfim, o que o tempo escondia:
    A cor não era tinta, nem desenho,
    Era o reflexo da luta e da agonia,
    Do suor vertido com tanto desempenho.

    ​Os olhos dela eram feitos de correnteza,
    Nascentes de um choro que nunca seca,
    Um desaguar de força e de beleza,
    Que a própria vida, em sua lida, peca.

    ​Eram olhos d’água, de rio, de pranto,
    Espelhos de um ontem que ainda resiste,
    Envoltos num manto de acalanto,
    Onde a esperança, mesmo ferida, existe.

    ​D’água que inunda, que lava e que cura,
    Olhar-corrente, ancestral e profundo,
    Que guarda em si a mais pura ternura
    E a história de quem sustenta este mundo.

    Luiz Carlos Bucalon

    (Baseado no conto Olhos D’água, de Conceição Evaristo)

  • Minha Poética

    Algo de mim, de Luiz Bucalon

    (Arte/imagem: Revista Lambari, Bagé-RS)

    Sou uma vida esquecida
    num ouvido surdo de lembranças
    e o poema
    o poema é feito de silêncios…

    Vivo à beira do desconhecido
    bem ao vértice
    onde o sonho perpassa o sono
    e afasto minhas roupas
    a entrever a eternidade…

    Parte de mim é esquecida
    outra parte desconhecida
    e quando sinto o belo ao olho
    de minhas dores brotam flores…

    Entro em teu quarto e sinto horas indo embora
    pois vivi a esperar-te e meu coração era só teus passos…

    Luiz Bucalon

                                  
  • Minha Poética

    Em círculo

    Uns voltam pra casa
    outros tomam outro caminho
    e outros dão a volta por longe
    e ainda outros… nunca mais…

    Até ontem morei aqui
    Antes de mim outro morou
    E antes dele outro também
    Hoje não moro mais em lugar nenhum
    Me perdi no voltar sempre pelo caminho mais distante.

    luizbucalon

  • Minha Poética

    Noite com lobos

    Os lobos batem à porta
    e este terror asfixiante
    na vaga escuridão

    o açoite da noite
    por causa da solidão
    é como aranha no caule
    tecendo a linha da vida
    e um palco de teias

    bem ali onde o doce é amargo
    a seiva desce indecentemente
    pelas veias estagnadas de dias

    meu rosto colorido dolorido
    tão cheios de vincos
    e sonhos de vinhos

    ajoelho-me sobre pedras
    debaixo de ventos e sóis
    onde palmeiras ventilam
    destilando serenatas
    em mundos acordados
    na incoerência das eras.

  • Minha Poética

    Estranho

    Eu falo dormindo quando tenho pesadelos
    arrumo briga numa casa vazia
    Eu sou desse tipo
    Daqueles que fogem de si
    Que entram nos outros
    Por baixo de pontes e casas abandonadas.

    Não sou ninguém
    Risquei meu nome
    Agora tenho vários
    Nomes pintados em muros rebeldes
    Em chapéus amassados
    Em perfumes vencidos
    Rasguei os documentos
    Agora sou o que sou, creia-me você ou não
    Eu sou livre
    Eu sou o que digo que sou
    Mas você não me reconhece quando digo o que sou

    Não, não me levem pra casa
    Não preciso ser carregado
    Deixe que o dia se apague
    Minha boca se babe
    Que a noite seja eterna
    E o gosto fugaz.

    luizbucalon