Minha Poética

​O TRILHO AMARGO DO REGRESSO

O ônibus é um bicho de ferro e cansaço
que arrasta Maria pelo ventre da cidade.
Nas mãos, o cheiro do sabão e do asfalto,
no peito, a pressa de voltar à sua metade,
de chegar onde o lar é o único abraço.

​O balanço das rodas desenha o destino,
um reencontro armado no acaso do assento.
Lá está ele: o rosto que foi seu menino,
o homem que um dia foi seu alento,
agora marcado por um novo tormento.

​O riso que foi mel virou navalha.
O abraço que era ninho, agora é desterro.
Maria vê o ex-esposo na margem, na falha,
e o amor, esse laço de carne e de ferro,
se perde no grito que a turba estraçalha.

​”Assaltante!”, grita o medo de olhos claros.
“É ele!”, grita o sangue de Maria no chão.
Mas a voz da justiça tem modos raros
de confundir o afeto com a contravenção,
e o silêncio se impõe entre tiros e amparos.

​Ficou na calçada o corpo-sentença,
o pecado de ser, de estar e de amar.
Maria tombou sob a sombra densa
de um mundo que não sabe como escutar
o som de uma vida que a dor recompensa.

Luiz Carlos Bucalon

(Baseado no conto Maria, de Conceição Evaristo)

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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