Labirinto das Letras

Serei sempre um desmemoriado

Memorial – Crônica – Manifesto

Quando vai tudo bem escrevo o que me vai bem, quando estou só a fazer merda (e isso é a maior parte da minha vida) então escrevo merdas hahaha.

Eu nunca tive história pra contar de vida fixa sem sair do lugar. Para mim as coisas nunca envelheceram. Não posso falar de casas antigas, de vizinhanças nem de bares. Não tenho aquela velha lembrança de igrejas zonas e lojas, nem de colégios ruas bairros relógios.

Nunca vi passar o tempo nas paredes. Jamais fiquei muito tempo num só lugar para poder contar reminiscências.

Olha aquela casa ali era mal assombrada desde que seu primeiro morador fora morto enforcado por suas próprias mãos… O padre pároco dessa igrejinha num dia amanheceu enlouquecido ao saber que era pai… Ali naquela esquina onde ficava a Praça dos Artilheiros… No fim daquela rua tem um rio no qual eu pegava as meninas nos domingos tardes de verão…” Essas coisas lindas e passadas, registros de uma vida lenta que escorre pelo limo dos muros e nem confidencias de varais; retratos amarelecidos e quadros desbotados; isso não tenho não.

Sempre fui forasteiro em minha própria casa, um abrigado provisório, hóspede do imprevisto, alguém que chega num dia e já noutro se vai sem saber pra onde. Um viajante caótico sem mapa nem documento.

Mas aonde estão minhas memórias centradas no cortejo nas entradas?
Cadê as recordações tão doces de menino doce de pés descalços peito aberto braços nus? Das gaiolas e alçapões, das bolas de gude dos carrinhos de rolimã? Cadê aqueles velhos amigos da infância baldia? As fotografias encarceradas em velhos álbuns de crisma e formatura, cadê meu Deus cadê?

Caminho de Volta

Lembro que morei em Santa Maria no Rio Grande do Sul. Meu pai não recebia o pagamento por seus trabalhos prestados numa oficina de mecânica pesada há alguns meses, minha mãe levava-me pela mão para almoçar na casa do padrinho Antão. Ela dizia não querer almoçar pois se eu já tivesse almoçado estava tudo bem.

Recordo-me que saímos de lá rumo a Uruguaiana no mesmo estado. Em Uruguaiana morávamos à Rua Liberdade quase às margens do Rio Uruguai. Ainda trago em mim a nítida imagem do barco São Borja por ali abandonado. Lá junto a esse barco fora enterrada a Gorducha minha cadelinha de estimação. O Rex um cachorro ovelheiro peludo também meu companheiro, ia todos os dias visitar sua amiga Gorducha junto ao velho barco, até que desapareceu para sempre e nunca soubemos o seu paradeiro ou que fim levou. A Gorducha fora morta ao comer caco de vidro moído na carne e tudo indicava que fora um dos vizinhos de muro.

Em Uruguaiana iniciei meus estudos primários no Grupo Escolar Júlio de Castilho, até algum tempo atrás enquanto minha mãe ainda vivia eu tinha um quadro com minha foto na secretaria da escola, lembro que ali eu queria ser advogado.

Depois repentinamente mudamos para Rubião Júnior uma espécie de distrito da cidade de Botucatu, isso no Interior do estado de São Paulo. Ali fomos morar na Fazenda Chaparral a 14 quilômetros pra dentro. Retomei os estudos na escolinha da estação velha, não lembro o nome, nem se já tinha concluído a primeira série. Os colegas e eu percorríamos três quilômetros, caminhando sobre o areião de casa à escola e Lembro que uma só sala sediava as quatro primeiras séries sob o comando de uma só professora.

Em pouco tempo minha mãe e eu fomos morar em Rubião Junior para que eu pudesse estudar em Botucatu no Colégio José Cardoso de Almeida, salvo engano. Meu pai ficou para trás trabalhando na fazenda, eu só o via nos finais de semana. Talvez a segunda e parte da terceira séries eu tenha feito nesse colégio. No José Cardoso de Almeida tive uma professora especial dona Maria do Carmo Villas Boas Gobete, parente Talvez irmã de Villas Boas “dos índios”. Seu sobrenome Gobete vinha do marido que era juiz da família, creio eu. Bem me recordo do César seu filho de cabelos cacheados e louros, de pele muito branca que estudava na mesma turma e sala que eu. Lembro do Edmilson, do Salim Massaúd, do Fortes e outros que já não lembro o nome. Ah tinha o Castanheira que morava bem próximo de mim e que quase todas as manhãs seu irmão mais velho nos deixava na escola em seu fuscão novo.

Professora Maria do Carmo alterou o ritmo de repetência dos professores e resolveu também lecionar para a quarta série para que assim pudesse acompanhar sua turma querida e nós a amávamos. Então ela passou de ano junto conosco. Incrível porque os professores nunca passavam de ano hahaha, eram só os alunos. Mas mais uma vez não cheguei a concluir o primário ali, mudamos e agora todos para Três Lagoas no Mato Grosso do Sul. Digo todos pai, mãe, avós, tios, primos, patos, galinhas, cães, gatos e eu; todos na carroceria de um FNM com excessão do pai por ser o motorista e dos meus avós pela idade mais avançada, o resto todos lá em cima.

Em Três Lagoas creio que em seis meses mais ou menos meus pais se separaram, então minha mãe e eu mudamos para Blumenau no estado de Santa Catarina. Fiz a quinta série nos colégios Victor Hering e no Professor Lothar Krieck respectivamente.

Planta Aérea

É fato que por frequentar muitas cidades e moradias, frequentei muitas escolas e mais tarde os mais diversificados trabalhos, e não sei se por consequência direta ou não acabei frequentando também a muitas mulheres. O que há em comum em tudo isso é que não me fixei nem me estabeleci em nenhum. Sobrou-me a literatura porque esta sim não me cobra nada e nem fiel a ela eu preciso ser. Posso agarrar-me a ela com tanto fervor na mesma hora que a deixo pra trás atirada num canto qualquer até o próximo abraço.

Na vida já fiz de um tudo, exerci várias atividades e funções, mas sempre fui escritor poeta. Não só porque não sei fazer nada mas porque nunca senti nada mais do que isso. Quando vai tudo bem escrevo o que me vai bem, quando estou só a fazer merda (e isso é a maior parte da minha vida) então escrevo merdas hahaha.

Sempre fui um grande trabalhador no sentido de labutador. Com oito anos eu vendia biscoitos, salgadinhos e café na entrada da faculdade de medicina e hospital universitário (FCMBB) de Rubião Júnior. Depois fui vendedor de toalhas e panos de prato pintados à mão feitos por minha mãe. Depois até os treze anos fui engraxate e vendedor de pipoca, salgadinhos, picolé, amendoim torrado entre outros produtos. Aos treze fui trabalhar no escritório geral da Induústria Souza Cruz na função de arquivista. Daí em diante tantas foram as coisas que fiz, mas nada que passasse muito além de um ano, razão pela qual nunca gozei daquele mês de férias trabalhistas.

O Vôo Livre

Durante a sétima série envolvi-me com uma menina da minha idade e cabulava, gazeava, matava a aula pra ficar fazendo sexo com ela enquanto seu irmão de catorze anos cuidava da porta para ver quando sua mãe chegava do trabalho após às 22 horas.
E como não poderia deixar de acontecer fui eliminado da lista de chamada, passei mais de mês sem sequer ir à escola, isto já no Colégio Luís Delfino de Blumenau. Daí em diante nunca mais retornei ao ensino regular, apenas li, li muito e sobre tudo, li clássicos e não clássicos, literatura boa e ruim – não há literatura ruim, mas ao que ela se propõe.

Escrevi muito e em suma, aos dezesseis publiquei meu primeiro libreto em edição alternativa e caí na estrada a vender durante a viajem.
Fui publicitário e marketeiro de ter agência, fui repórter, revisor e redator de ter jornal, fui ativista cultural e defensor dos direitos humanos de ter ONGs, fui artista plástico de ter atelier. Também fui ator, empresário e diretor de teatro. Enfim não vou falar tudo de uma vez só hahaha.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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