Labirinto das Letras

Minha caminhada matutina

Ensaio filosófico – Crônica – Poética

Ah! E quem poderá dizer o que é e por onde anda a verdade?!… Um cão traz em si a verdade, a sua própria verdade.

Saí meio a toa a princípio para dar uma caminhada, aproveitando o momento já passei por alguns estabelecimentos comerciais buscando trabalho: “trabalho, não emprego ou quem quer que seja que inventou o trabalho, mas trabalho”, este era o meu discurso. A vantagem de quem não tem uma profissão definida é que qualquer coisa serve.

Gostei de procurar trabalho logo de manhã cedo, isto angariou-me algumas boas conversas com alguns pequenos e médios empresários, cheguei até a tomar chimarrão em Bagé, ora vejam só. Havia tempo que não exercitava tal ofício: o de procurar emprego. A manhã estava ensolarada, iluminada e as pessoas um tanto quanto sorridentes, um sorriso assim meio pra dentro. É que às vezes achamos que as pessoas estão tristes, que não sorriem, mas o fato é que no fundo todos riem por dentro.

O livro ainda vende pouco, o canal YouTube ainda não decolara, o blog de certa forma já está bombando, mas não ao ponto ainda de render-me alguns trocados. Apoio governamental: este perdi totalmente a fé. Vejo muitos literatos e artistas se dando bem por aí, mas não é o meu caso, e olha que já andei por aí e até criei calos nos dedos de tanto bater em portas cheirando a verniz. Já perdi a conta de quantos olhares jocosos por cima dos óculos de tantas secretárias vetustas e encarquilhadas.

Um escritor é sempre desafiado por um teclado a sua frente e como se não bastasse ainda fui morar no Bairro Santa Tecla (risos), ironia do destino não sei. O fato é que aqui estou novamente recomeçando… Se recomeçar sempre, além de difícil pode ser reconhecido como um conjunto de erros passados, sim pois se fosse de acertos não haveria a necessidade de se recomeçar indefinidamente, por outro lado indica um certo frescor e jovialidade, uma capacidade vital que vai além dos anos vividos. É certo que as pessoas da minha idade chamam-me de senhor e que os mais jovens de velho ou simplesmente “véio”, mas a verdade é que não vejo-me como tal e tão pouco sinto-me assim. Interessante, às vezes pego-me acordando pela manhã como se fosse a primeira das manhãs de toda a minha vida, a memória dos dias vividos não pesa-me, ela não é contada assim de forma linear com o peso de dias e dias passados. A memória dos meus dias vividos surge como se eu a tivesse bebido num só gole, não são as memórias que carregamos que nos dão a medida da nossa juventude ou velhice, talvez a lembrança da idade atual que se levada muito a sério torna-se limitante tipo, “eu não posso mais agir de tal e tal forma pois não sou mais um guri, já sou um homem velho”, mas nunca dei-me a pensar ou agir assim. Talvez digam lá os mais doutos e sapientes que isso não passa de um retardo mental no meu caso, mas também a mim isso pouco importa. A estes sábios e doutos dou-lhes uma passagem só de ida para os quintos dos infernos de Dante.

A minha verdade é que importa para mim, e a minha verdade é a que está em mim, é aquela que eu sinto e toco agora neste exato momento. Pois é fato que a verdade nunca é absoluta nem perene, a minha verdade é só a minha verdade e durante um tempo necessário para que ela mude, a verdade que trago comigo não tem que necessariamente coincidir com a verdade de outrem nem na mensagem que ela traz nem no tempo em que existe.

Ah! E quem poderá dizer o que é e por onde anda a verdade?!… Um cão traz em si a verdade, a sua própria verdade. E quem poderá dizer o contrário? Desde que não estamos na pele de um cão, um urso ou um cavalo como poderemos afirmar a sua verdade? A verdade dos bichos, das plantas ou dos homens é mesma segundo o que cada um sente e carrega em si mesmo num determinado e exato instante. Daí vem a minha desconfiança e o meu riso interno, aquele sorrir por dentro lembra?, Dos frágeis e tão atemporais homens que jactam-se a donos, conhecedores e detentores da verdade.

Domingo, dia dos pais, 2023. Passamos na casa de um amigo, abraços calorosos abraços. “Quer um cafezinho?” Uma xícara, uma garrafinha de café solúvel, um açucareiro, água quente e pronto!

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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