Virando Latas
Fluxo de consciência – Diário – Poética – Microconto
Segui caminhando já sem luz, ouçam bem, eu disse já sem luz, e não escuro entenderam?
Hoje amanheci meio assim…
Logo cedo saí pelas ruas a observar as coisas. São tantas coisas que pude ver, e por trás destas coisas coexistem tantas outras… A vida é uma coisa cheia de coisinhas!
Não posso deixar de rir, pois sou engraçado ao meu próprio modo (risos). O importante é que eu dizia, saí a caminhar assim, no dizer de Dom Evaristo Arns, “e a sentir o espírito das ruas”. Fui à casa de Paulo, mas cadê Paulo? Não estava. Então procurei por João, mas onde se meteu esse homem? Nem Pedro tão pouco lá estava! Mas onde estão meus pupilos?!
Caminho embrenhado numa selva de memórias…
Tropeço em algo, então desperto para o aqui e agora e, ainda a caminhar, ilumino coisas por trás das coisas, assim como que enxergando por dentro de tudo …
A verdade é que tudo passou a existir a partir de uma minúscula buceta… A buceta do universo… Como uma buceta de mulher…
Verônica debruçada à janela observava absorta a paisagem. Nua da cintura para baixo acenava para mim com sua imensa boca escancarada.
Que grande e carnosa cavidade!
Me aproximei e apertei de mão cheia. Era enorme, volumosa e cheia do apetite. Encostei mais abrasado no calor da urgência de um vulcão. Ela sorriu um sorriso assim de domingo, mais, era um sorriso de safadeza.
Demoramos um pouco por ali até que a noite atirou sobre nós seu manto púrpura.
Eu voltei a caminhar agora com meu dedo dolorido. Como apertava – rememorei ao andar. Segui caminhando já sem luz, ouçam bem, eu disse já sem luz, e não escuro entenderam? Era muito bom passear por ali sem compromisso algum, pela rua ia encontrando os loucos, os poetas e os doutos. Uns com livros, outros com pás e martelos e outros ainda com latas e isqueiros já se escondendo.
luizbucalon