O TRILHO AMARGO DO REGRESSO
O ônibus é um bicho de ferro e cansaço
que arrasta Maria pelo ventre da cidade.
Nas mãos, o cheiro do sabão e do asfalto,
no peito, a pressa de voltar à sua metade,
de chegar onde o lar é o único abraço.
O balanço das rodas desenha o destino,
um reencontro armado no acaso do assento.
Lá está ele: o rosto que foi seu menino,
o homem que um dia foi seu alento,
agora marcado por um novo tormento.
O riso que foi mel virou navalha.
O abraço que era ninho, agora é desterro.
Maria vê o ex-esposo na margem, na falha,
e o amor, esse laço de carne e de ferro,
se perde no grito que a turba estraçalha.
”Assaltante!”, grita o medo de olhos claros.
“É ele!”, grita o sangue de Maria no chão.
Mas a voz da justiça tem modos raros
de confundir o afeto com a contravenção,
e o silêncio se impõe entre tiros e amparos.
Ficou na calçada o corpo-sentença,
o pecado de ser, de estar e de amar.
Maria tombou sob a sombra densa
de um mundo que não sabe como escutar
o som de uma vida que a dor recompensa.
Luiz Carlos Bucalon
(Baseado no conto Maria, de Conceição Evaristo)