Labirinto das Letras

O Espantamento, de Luiz Bucalon

Análise crítica sobre Mineirinho de Clarice Lispector em relação à sociedade atual.

E se nada mais escandaliza, se nada mais revolta, se não há indignação imediata e profunda, então tudo está morto; a zumbilândia abandona a metáfora.

Não posso afirmar se Clarice Lispector, passados mais de quarenta anos ainda sentisse tal acontecimento tão latente e à flor da pele ou se liberdade tivesse para propalar seu então veemente sentimento, já que todos são antes e sobretudo produtos da própria história.

A sociedade torna-se a cada dia um tanto mais inerte e apática, não há mais maravilhamento pelo belo e tão pouco espantamento pelo feio. Embrutecido o homem perdeu a faculdade do sentir, furou-se-lhe os olhos de enxergar por dentro. Num ambiente onde o anormal se normatiza e o normal se banaliza, nada mais comove, nada mais emociona e nada mais compadece. Não há mais gradação de quente e frio, está tudo morno, tudo a meio caminho, todos pela metade e o que é pior, nem homem nem máquina, mas um híbrido homem-máquina.
E se nada mais escandaliza, se nada mais revolta, se não há indignação imediata e profunda, então tudo está morto; a zumbilândia abandona a metáfora.
Quer parecer que se a escritora externasse hoje publicamente o seu sentimento e opinião a respeito deste mesmo fato ou de outro semelhante, junto às redes sociais seria quase certo o seu enxovalhamento, a sua degradação, a sua rotulação indigna enfim, a crucificação total; cancelamentos, bloqueios e xingamentos.
Houveram épocas que a luta era declarada contra inimigos visíveis, ditaduras, regimes opressores e governos déspotas, eles estavam ali, sabia-se da onde partiria a artilharia. Hoje porém com o advento das redes sociais, dando voz e munição sob a proteção do anonimato a muitos que sequer reconhecem seu verdadeiro adversário, estes saem atirando a esmo e muitas das vezes contra seus próprios pares e co-irmãos.
Em suma, com a mesma intolerância fanática e opressora de sempre, a ditadura e a repressão tornaram-se difusas e transmitidas pelo ar.

luizbucalon

Imagem disponível na Revista SENHOR, junho de 1962, ano 04, n°. 40.

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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