O Espantamento, de Luiz Bucalon
Análise crítica sobre Mineirinho de Clarice Lispector em relação à sociedade atual.
E se nada mais escandaliza, se nada mais revolta, se não há indignação imediata e profunda, então tudo está morto; a zumbilândia abandona a metáfora.
Não posso afirmar se Clarice Lispector, passados mais de quarenta anos ainda sentisse tal acontecimento tão latente e à flor da pele ou se liberdade tivesse para propalar seu então veemente sentimento, já que todos são antes e sobretudo produtos da própria história.
A sociedade torna-se a cada dia um tanto mais inerte e apática, não há mais maravilhamento pelo belo e tão pouco espantamento pelo feio. Embrutecido o homem perdeu a faculdade do sentir, furou-se-lhe os olhos de enxergar por dentro. Num ambiente onde o anormal se normatiza e o normal se banaliza, nada mais comove, nada mais emociona e nada mais compadece. Não há mais gradação de quente e frio, está tudo morno, tudo a meio caminho, todos pela metade e o que é pior, nem homem nem máquina, mas um híbrido homem-máquina.
E se nada mais escandaliza, se nada mais revolta, se não há indignação imediata e profunda, então tudo está morto; a zumbilândia abandona a metáfora.
Quer parecer que se a escritora externasse hoje publicamente o seu sentimento e opinião a respeito deste mesmo fato ou de outro semelhante, junto às redes sociais seria quase certo o seu enxovalhamento, a sua degradação, a sua rotulação indigna enfim, a crucificação total; cancelamentos, bloqueios e xingamentos.
Houveram épocas que a luta era declarada contra inimigos visíveis, ditaduras, regimes opressores e governos déspotas, eles estavam ali, sabia-se da onde partiria a artilharia. Hoje porém com o advento das redes sociais, dando voz e munição sob a proteção do anonimato a muitos que sequer reconhecem seu verdadeiro adversário, estes saem atirando a esmo e muitas das vezes contra seus próprios pares e co-irmãos.
Em suma, com a mesma intolerância fanática e opressora de sempre, a ditadura e a repressão tornaram-se difusas e transmitidas pelo ar.
luizbucalon
Imagem disponível na Revista SENHOR, junho de 1962, ano 04, n°. 40.