A Normatização do Anormal, de Luiz Bucalon
Análise crítica do pensamento de Clarice Lispector no Mineirinho.
Quando alguém mata a outrem, eu sou o assassino e o assassinado, eu sou o que atira e o que é atirado.
Partindo do pensamento de Clarice, não posso afirmar se há um Deus pai cuidando do homem, mas tenho certo de que um homem pode ser pai para cuidar de outro homem, e se este não o faz não é só responsável mas cúmplice de todas as experiências daquele outrora não cuidado.
Para que possamos viver tranquilos dentro da normalidade de nossa casa, nos isolamos, nos individualizamos e nos protegemos atrás de portas e grades resistentes e carros à prova de balas. Nos encolhemos em posição fetal, vendamos os olhos, amordaçamos a boca e lacramos os ouvidos, auto-exilados do mundo estamos distante de tudo e de todos. Não sabemos do que acontece lá fora, não sabemos de nada, não queremos saber do outro, pois a ignorância alegada imuniza-nos contra os efeitos da lei maior, da lei natural, da lei das espécies. Ali somos inocentes isentos das sanções e das resultantes da vida.
Em verdade não somos homens e nem mulheres, jovens ou velhos, somos um bando e mais, somos uma espécie, um corpo familiar, e para um familiar sempre podemos fazer algo de bom, e quando deixamos de fazê-lo o abandonamos. E a esta pequena célula mutilada do corpo-espécie, a este ente familiar extirpado e só, nada mais resta além do degredo e a degeneração do medo.
Então neste ponto viramos a ampulheta onde contam o tempo e o esquecimento, e por mais que ocultemos a vergonha da nossa própria nudez, já estamos expulsos do paraíso e tudo passa a ser sentido na carne do outro que é a mesma carne minha.
Toda a sorte ou infortúnio do próximo é antes meu, pois inexiste o outro senão eu. Quando alguém mata a outrem, eu sou o assassino e o assassinado, eu sou o que atira e o que é atirado. E em toda a trajetória humana eu serei o orgulhoso ou o envergonhado.
luizbucalon
Imagem disponível na Revista SENHOR, junho de 1962, ano 04, n°. 40.