Minha Poética

Noutra Cena, de Luiz Bucalon

Ai que saudade de mim
Saudade de domingo amanhecendo
Da mesa da manhã com bolinhos fritos
Do aroma do café no copo aparado

Ai que saudade de mim
Da rua de frente da casa, das pedrinhas redondas, da grama verde molhada
Saudade de caminhar sonhando

Saudade de mim, saudades de abraço a quem nunca abracei
Saudade de tudo o que não vi
Saudade de lugares que não trilhei

Olho à parede a capa dependurada
A chuva foi e veio o sol e ela aguarda a nova estação
Lá fora terra molhada frescor e ardência
O cachorro que cheira e faz buracos

Ao lado e acima da capa à parede destinta
Pendurados ali etiquetados todos os meus haveres
Coisas intocáveis com os dedos
Objetos de memórias, são sopros de tempos

Dores lembradas presas num gancho alí à parede muda imóvel silente
São dívidas e haveres e saldos de saudade
Bugigangas penduricalhos e conchas de mar

Há uma sacola na parede ao lado onde trago de tudo
Aprendizados e novidades pagos com ferimentos
Manchas de sangue incolor e inodoro
É sangue de dentro de dentro onde não há mais sangue
São marcas registros lembranças de antes do corpo

A casa tem tantos cômodos
Mas só uso um onde há janela
Debruço-me ali na soleira
Reviro a terra mexo na floreira

Ai que saudade de sede fome sono
Saudade de brilho perfume gosto
Um vento forte sobre as telhas erguendo uma a uma como dominós caídos

E a noite de meus olhos tem lua e luares
Relâmpagos de estrelas casadas
E quando recordo é um risco branco cortando os céus
E abaixo, as pedrinhas redondas e lisas
A gramínea verde de cheiro orvalhada

Saudade da roupa nova de domingo
Do sapato preto amarrado lustrado
Da calça vincada, a lã e o casaco listrado
Suspiro fundo olhando a tudo
Onde tudo passa tudo gira girando noutra xícara de café.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *