Coisas de Guarda-Chuvas
Conto surrealista – Conto fantástico
Falou em discrição aqui estou eu, talvez por ser preto eu passe em branco. Eu sou um vazio; um estar e já não estar. Ninguém filosofa a respeito do guarda-chuva, e objeto de estudo científico jamais serei. Você já viu alguém defender tese de guarda-chuva?
Entrei em diálogo com meu guada- chuva. Um diálogo mudo. Eu falava pensando e ele falava surdo; só nós dois num diálogo de ouvido. É que numa conversa muda refina-se o dom do ouvir.
Ele preto, sóbrio, imóvel, austero e quase sem graça. Eu em carne e osso vivos e de acesos olhos, instigado pelo inusitado da situação.
Imagine eu confabulando atentamente com um guarda-chuva… Se a moda pega logo logo estarei trocando idéias com a tigela, o fogão, o vaso sanitário, o que não seria de todo perdido nem em vão, pois estes com certeza sabem de tantas coisas que sequer percebo.
Meu guarda-chuva desde que o achei no cenário de uma cena macabra, fala-me coisas sobre dias sem sol e noites sem lua, o que é compreensível já que raramente sai de casa um guarda-chuva em dias ensolarados ou em noites enluaradas sob céu claro ou estrelado. Mas não tome-o por bobo nem desinformado, ele tudo sabe acerca de noites e dias chuvosos e tempos trevosamente trovosos.
Eu o ouvia atenciosamente balançando a cabeça com uma certa parcimônia; sua figura séria, compenetrada e ausente de sorriso até me impõe respeito.
– Às vezes – confidenciou-me ele – saio em dias de sol, apesar de raramente isto acontecer, mas quando acontece é por mera prevenção, talvez haja chuva à espreita. Em tal condição quase sempre sou esquecido em um lugar qualquer, até porque portar guarda-chuva em dias de sol não pega bem, é careta, coisa de velho.
Ora para que serve um guarda-chuva como eu se a chuva não vem? Eu sou uma coisa esquisita nem um ser eu sou. Não sou visto como obra de arte, não tenho beleza e minha utilidade limita-se aos períodos chuvosos isto é, a menor parte de minha existência na terra, no mais sou inútil.
Ninguém com o mínimo senso estético diria: “Olha que beleza de guarda-chuva!”. Também não sou considerado patrimônio, ninguém deixaria como herança um guarda-chuva. Um presente… Quem daria de presente de natal ou de aniversário um guarda-chuva?
A bem da verdade sou um substantivo composto de nada com coisa nenhuma, talvez encontrado lá pela metade do dicionário. O que me serve de consolo é que o dicionário é muito pouco procurado também, até mesmo nos dias de chuva, em contrapartida o seu proprietário ainda desfruta de algum orgulho em possuí-lo. Mas ninguém em sã consciência jactaria-se em possuir um guarda-chuva. Sinceramente, você já ouviu alguém gabar-se ter comprado um “belo” guarda-chuva? Ou mesmo mostrar preocupação pela extinção iminente dos guarda-chuvas do planeta? – Eu – continua ele – raramente sou enxergado em qualquer lugar da casa. Falou em discrição aqui estou eu, talvez por ser preto eu passe em branco. Eu sou um vazio; um estar e já não estar. Ninguém filosofa a respeito do guarda-chuva e objeto de estudo científico jamais serei. Você já viu alguém defender tese de guarda-chuva?
– Sim, eu o compreendo perfeitamente, e como o compreendo – asseverei.
– Pois é, lá no meu cantinho, pendurado ou no chão, posso meter o dedo no nariz ou até mesmo coçar a bunda que ninguém irá perceber.
– Mas conte-me sobre alguma experiência de guarda-chuva – incentivei-o.
– E tudo o que posso contar são experiências de guarda-chuva, desde que sou um legítimo guarda-chuva…
Há alguns dias quando ainda pertencia a outro proprietário, num período de chuvas intermitentes, fui emprestado por ele a um seu amigo e então fomos longe. Eu sentia a lâmina fria da chuva tranformar-se num veludo morno e quase aconchegante à medida que as horas iam passando. A chuva sempre acaba trazendo-me novidades das alturas: o avanço tecnológico das aeronaves cortando os ares, a ferocidade dos raios rasgando os céus, richas e segredos de nuvens e até mesmo sobre anjos e extraterrestres.
Enfim, vou ater-me aos fatos atinentes ao passeio em questão.
Bem, lá eu ia sobre o corpo do homem, e isso leva-me à lembrança de quão rápido se dão minhas ascensão e queda; hora estou no alto e tão logo cesse a chuva ou se cumpra o destino, volto ao chão. E não basta apenas ser no chão senão que bem oculto, pois não tenho boa fama como objeto de decoração, olhar para um guarda-chuva fechado e olhar para um penico dá no mesmo.
Pensando bem pareço-me mais a um agente funerário, um coveiro ou mesmo a um urubú. Afinal quem teria um urubú em seu quintal? E quem sorriria diante de um coveiro ou de um agente funerário?
Você também já deve ter ouvido que quando se está com um gosto ruim na boca, dizem ser um gosto de guarda-chuva. Ora por acaso já chegou a comer um guarda-chuva?
– Deixe de rodeios e conte logo o que ia dizer – interrompi já ansioso.
– Aquele homem segurava-me firme em sua mão direita, eu podia até sentir sua pulsação. E do alto eu podia ver seu chapéu de feltro. Era um chapéu bem com cara de chapéu mesmo, aliás um chapeu é e será sempre um chapéu, não pode ser confundido com mais nada. Mas este chapéu em particular tinha um jeito taciturno, ensimesmado e de poucos sorrisos ou palavras.
O chapéu sabia de muita coisa, muitos segredos e de tanto tempo sobre aquela cabeça, até mesmo soletrava alguns dos pensamentos que por ali fervilhavam.
– Sabe para onde estamos indo? – indagou-me ele.
– Nem imagino – respondi.
Com um olhar penetrante que só um chapéu de feltro pode ter, e quase desesperado ele marcialmente confidenciou:
– Por uma questão ética não posso detalhar a situação, mas o certo é que vai dar em merda.
– Perdido e sem entender bulufas, pois como sói ser um guarda-chuva sou lento das idéias, e ele também nada mais disse, a despeito de minhas inúmeras indagações, posto que todo o guarda-chuva que se prese tem uma aguçada curiosidade.
A chuva era torrencial, com gosto de sono de cobertor. O homem sob minha guarda virou esquinas, cortou vielas, subiu uma ladeira e depois alguns degraus e tocou a campainha; algo assim com uma urgência segredada.
Ao abrir a porta pude ver que tratava-se de uma linda e robusta mulher de meia idade.
– Meu amorrrrr – dizia frêmita e ansiosa – até que enfim, achei que não mais virias, que tivesses me esquecido!
– Abraçaram-se num arroubo de voracidade e lascívia. Trocaram um longo beijo de mil e uma noites e deitaram-se à cama.
O chapéu jazia como que adormecido assim feito um morcego, dependurado sobre uma das pontas do encosto de uma cadeira de palha.
Por detrás da porta onde fui atirado pude ainda ouvi-los:
– Que bom que está aqui meu amor!
– Graças ao seu marido que gentilmente emprestou-me seu guarda-chuva!
Só então percebi um grosso filete de sangue espesso a escorrer do chapéu descendo pela cadeira até empoçar avermelhando o piso.
luizbucalon