O Meu Poema
Poema sobre a vida (comentado)
Uma escultura coração retorcido
o meu poema é um olhar retinido.
O meu poema às vezes surdo
Às vezes mudo
Se muda, se planta e se colhe
De dia e de noite despido se encolhe
O meu poema é pequeno, é elástico, é grande
Não cabe nada no meu poema
E suporta no mundo toda a pena
O meu poema é mulher desnuda a vestir-se de noite
Ele se pinta, sorri e faz caretas no espelho de açoite
O meu poema é o trabalho e o trabalhador
É sofrido, mal pago e desconhecido
Dia a dia talhando sua dor
O meu poema é um edifício frondoso
É o tijolo bem de baixo onde a massa amalgama
A massa, aquela massa que passa no dia trevoso
O meu poema é mão calejada, rosto queimado
Pescoço enrugado há tempos largado à sorte da dor
Mas num instante esquecido bem à noitinha
Ainda resta o sorriso e um gemido de amor
O meu poema também é casebre no alto do morro
Onde pulam as crianças amarelinha
Sob o ouro do sol amarelo só corro
Ah! O meu poema!
O meu poema é um grito, um alerta
Um estilhaço de fogo, uma bala perdida
Onde o corpo caído desperta
O meu poema pedaço de peito servido
Um recorte de alma sofrida
Uma escultura coração retorcido
O meu poema é um olhar retinido
O que seria então esse poema senão fosse denúncia
Senão fosse agressivo, ácido e guerreiro
Senão fosse áspero e duro, um furo
Se tão somente dançasse a renúncia?
Mas o que seria ele então?
Poema ele não seria se à opressão elegia
Não seria um poeta se eu fosse um simples esteta
Não seria ele o meu poema de veias abertas
De mãos sangradas feridas de horas incertas
Mas o meu poema é o grito de guerra
Aquele brado mais ecoante
De punhos fechados na luta o peito encerra
O meu poema é a erva daninha
É o jornal sem linha
Tomado de ruas no amanhecer
O meu poema traz em si a ternura
Sem esquecer a ranhura
Que o faz endurecer
O meu poema cultiva e acalenta uma flor
Borda jardins tingidos de palavra e ardor
Mas não esquece a história ferida e a memória
Na inconstante labuta de lavra e dor
O meu poema é povo sem divisor
O meu poema não tem classe e nem cor
O meu poema tem braços, dedos e pés em reação
O meu poema traz vermelha vinha no coração
Contra o meu poema não há anti-poema
Porrete, gás, prisão ou algema
Ele não pode ser calado, sufocado, amordaçado
Uma vez escrito na alma jamais será rasgado
O meu poema é desejo, anseio, sonho e multidão
É a dona de casa batendo panela ali na esquina voz na feira
É a mulher sofrida, a criança mal parida e a mutilação
O meu poema é pá, foice e machado
É sulco no rosto marcado puxando a fileira
O meu poema é suave romântico e rebelião
É água que escorre toma espaço em aluvião
É menino alimentado vestido sem pé no chão
O meu poema é palhaço, é a cultura e a arte nas ruas da cidade
O meu poema é o sagrado trabalho oficiando a construção
O meu poema é homem, é mulher, é a vida, o saber do ancião.
O meu poema é encanto e um canto de libertação
O meu poema é um grito na voz da revolução
Nasce aqui e agora sem nada esperar à posteridade
O meu poema é um campo minado, é trincheira, é rebentação.
Nota do autor: Um poema social. Aqui minha simpatia e solidariedade ao povo trabalhador e batalhador. Aos meninos que desde cedo buscam seu lugar. À mulher guerreira e terna. Ergo uma voz estridente e Revolucionária em dias de luta por mais igualdade e justiça social. O meu poema é demolidor.
luizbucalon
6 Comentários
Cristina Maria da Silva
Professor mesmo não sendo uma escritora e nem ser uma pessoa com conhece mento em literatura eu gosto do mundo da poesia e da leitura no passado já participei muito de concursos de redação era muito boa .Mais com o passar dos anos tive algubs problemas de origem depressiva e minha intelectualidade ficou um pouco comprometida pelo uso de antidepressivos e hoje tenho alguns problemas de esquecimento e dificuldade para me concentrar por isso estou lendo pouco mais gosto por demais de poesias declamadaa e narradas como esse seu jeito incrível de nós trazer seus poemas de forma tão plena . Meus parabéns e muito sucesso professor nessa sua jornada incrível literária .
Luiz Bucalon
Muito agradecido pela sua visita à Casa do Poeta! Abraços!
Myriam Britto
O seu poema é maravilhoso!
Luiz Bucalon
Muito obrigado querida poetisa pela sua preciosa apreciação!
GEDIEL PINHEIRO DE SOUSA
Estou maravilhado com um poema dessa magnitude meu caro poeta Luiz Bucalon…eu leio tantos poemas por dia, porém raramente encontro poemas desse quilate intelectual …
Parabéns colega, por expressar tão bem às várias concepções do POEMA.
Luiz Bucalon
Sinto-me honrado pela apreciação vindo de um poeta inspirado como o nobre amigo!