Factual Fronteira, de Luiz Bucalon
Poema sobre a vida (comentado)
A vida e a não-vida
por um fio tão divididas.
A vida e a não-vida
Por um fio tão divididas
Jamais conjugada no plural a vida
Ela um só caminhar de sobressaltos
Onde a continuação é perseguida
Sucessão de planícies e planaltos
A vida e a não-vida
Por um fio tão divididas
É só uma tênue e divisória linha
Hoje digo tenho amanhã eu tinha
Hoje está tudo bem
Amanhã já não se tem
A vida e a não-vida
Por um fio tão divididas
Hora resignada e permanente
E noutra já estou doente
Se a saúde da vida é a medida
A medida da saúde é a vida
A vida e a não-vida
Por um fio tão divididas
Basta uma corda dissonante
E a normalidade é estremecida
A vida é uma dança ensandecida
É disparada na rota desconhecida
E tudo o que valia nada vale então
E o seguro escorrega à minha mão
Tudo posso se dentro desta vida
Fora dela nada há que me importe
Passo dias em ciranda embrutecida
A esperança desespera vem o corte
A vida e a não-vida
Por um fio tão divididas
Ao sentir o palpitar do coração
Faço dele o meu olho e a visão
Se o ar ainda infla meus pulmões
Eu resisto não é agora o meu fim
Agarro-me à vida em mil razões
Insisto contra o não e busco o sim
A vida e a não-vida
Por um fio tão divididas
Observo em cada fio de suas teias
Meu sangue indo vindo pelas veias
Pulo grito canto danço riso então
Abraço beijo amo a cada encontro
Se estar vivo é pura contemplação
Em cada hora uma nova celebração
A vida e a não-vida
Por um fio tão divididas
Vivo o agora maravilhado espanto
Vida sinfonia violo nota en-canto.
Nota do autor: A vida e a não-vida são separadas por uma tão tênue linha divisória, que a bem da verdade sequer sabemos onde termina uma e começa a outra. Tudo realmente é sem fim, não porque dure eternamente; mas o fato é que antes da finalização de um estado já começa outro. A existência é ininterrupta. As coisas não começam nem terminam apenas mudam de estado. O melhor mesmo é contemplarmos e celebrarmos o espanto e o maravilhamento dessa portentosa odisséia.
luizbucalon