Labirinto das Letras

A certeza da dúvida

Memorial – Crônica – Relato de viagem – Autoficcção

Assim é a vida, uma trama de fios casual ou intencionalmente emaranhados, conduzindo a uma reação em cadeia para uma ascendente realidade.

De contos e descontos se faz a história. Sair por aí aventurando e vendendo meus livros causava-me um misto de sensações e sentimentos muito paradoxais. Se por um lado como diz muito bem Milton Nascimento, “o artista deve ir aonde o povo está”, por outro sempre gostei de viajar e conhecer lugares e pessoas. Mas na minha posição social e situação financeira não tinha como eu simplesmente sair a viajar, se não vendendo livros pelo caminho.

Tudo era divertido mas também muito perigoso. Os resultados eram incertos, era setenta contra trinta as chances daquilo dar certo. A venda de livros comprovava que eu estava a trabalho, na falta de residência fixa e carteira registrada. Ao longo de tudo eu vivia também muito exposto, era tudo muito inseguro, eu não sabia as horas e nem tinha um destino certo. Eu não sabia em qual esquina dobrar, não conhecia nada, eu vivia sobre uma corda bamba sob o fio de uma afiada lâmina, era quase um jogo de azar. O que eu ganhava era muito pouco para muito trabalho, quase nunca sobrava para o outro dia. Cada dia era um novo dia de desafios e estes, somente estes eu conhecia. Quando todos os exemplares eram vendidos, era hora de retornar pra casa e mais duro do que quando havia saído. Numa dada madrugada em Santos estava eu já exausto oferecendo meu livro de mesa em mesa pelos barzinhos do Gonzaga, quando um rapaz, creio que para fazer média com as moças da mesa, me pergunta se eu não tinha um trabalho de homem pra fazer. Respondi-lhe apenas que talvez ele não conseguisse passar pelo que eu passava para estar ali, longe de casa e àquela hora da madrugada sem saber ainda se teria onde descansar e se alimentar.

Na primeira vez que fui a Santos estava acompanhado por um poeta catarinense que ajudava-me na venda do livro, foi muito bom por não estar sozinho, mas a despesa também era maior. Nessa época, anos 80 quase 90, Santos passava por uma explosão no índice de contágio por HIV, segundo um pesquisador do IBGE que conhecemos na noite. Muitos jovens, de ambos os sexos e sexualmente ativos faziam parte de um grande grupo de risco, a vida noturna alí era uma caixa de Pandora, uma verdadeira roleta russa por assim dizer. Fora isso ainda havia outros riscos comuns às cidades grandes e muito movimentadas. Parávamos de trabalhar diariamente e sem folga aí pelas três, quatro horas da manhã e ainda seguíamos caminhando pela praia até São Vicente, para chegarmos a uma hospedaria a qual ainda conseguíamos pagar. Passamos por São Paulo antes de descermos para Santos, onde permanecemos por alguns dias na capital. Corríamos muitos lugares, alí ao pé do MASP, Praça da Sé, Rua Augusta, Avenida São João, Campus da USP, praças, escolas, bares, centros culturais enfim, passamos pulando de um lado a outro. São Paulo foi engraçado, já na ida, na parada em Registro para o jantar, o nosso ônibus foi embora nos deixando para trás sem bagagem e sem dinheiro. Tivemos sorte que em pouco tempo encostou um ônibus leito para a capital e nos levou de carona a pedido do agente de passagens, ficamos no lucro pois íamos de convencional. Chegando no Terminal Tietê recuperamos nossa bagagem composta de poucas roupas e muitos, muitos livros. Andamos o dia inteiro com todas as sacolas buscando vender o máximo que podíamos, mas parecia tudo em vão naquele dia, por fim exaustos e ainda sem dinheiro suficiente para as despesas com hospedagem e alimentação fomos para um hotel. Pela manhã ao sairmos tivemos de deixar uma maleta cheia de livros para pagar o pernoite. Ainda assim estava tudo bem, foi tudo muito difícil alí, mas ainda tínhamos a rebeldia e o dom de rir da situação. Tive também a oportunidade de conhecer a Praça da República, o que me fez ganhar dinheiro anos mais tarde ao escrever a peça teatral A Praça da República, escrita sob encomenda para uma boate cinco estrelas em Balneário Camboriú. Assim é a vida, uma trama de fios casual ou intencionalmente emaranhados, conduzindo a uma reação em cadeia para uma ascendente realidade.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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