O que me define
Ensaio filosófico – Diário – Poética – Microconto
O que sou afinal? Esta pergunta é procedente se eu partir do “o que sou?” para depois buscar “quem sou?”. Já o self, o Eu, é outra história, talvez só uma consciência pairando no tempo e no espaço.
O que sou? Sinceramente não consigo definir-me. Não consigo definir-me por ser eu mesmo aquilo que busco definir. Como definir algo enquanto estou mergulhado nele? Tão profundamente mergulhado, eu diria profundamente enraizado. Tão, tão, tão enraizado profundamente que chego a acreditar ser um só. Às vezes sinto que não há ele – o algo – e eu. Não consigo divisar se estou por fora e ele por dentro ou se estou dentro e ele, o algo, fora. A bem da verdade creio -me um só com algo, então dessa fusão resta apenas algo ou eu, ou quiçá nenhum dos dois ou talvez uma terceira coisa.
Bem, a verdade, a minha verdade, não a verdade comum e geral, a verdade de todos e tão banal. A minha única, exclusiva e possível verdade, sim, só esse pérfido e perfumado aroma que me assoma o espírito. Não, não falo da verdade elaborada e concluída, não falo da verdade velada e constituída nem da verdade dogmatizada da religião, também não falo da verdade domesticada da filosofia. Não me refiro à verdade golpeada a machado pelos monges medievais nem à verdade dos gurus alcunhadores de moedas em vis metais. Não, não, não é dessa verdade que falo não. A verdade sim mas a minha verdade, aquela que foge-me ao tato, aquela que esvai-me entre os dedos, sabe do que falo? Não? Pois é, nem eu quase o sei. É uma verdade borboleta que depois de ser gestada por tanto tempo em um casulo, ao conseguir vôo alçar, desaparece, se dissolve entre tantos matizes no ar.
Então como definir-me verdadeiramente? Eu só consigo definir muito mal e parcamente uma cabeça de alfinete, pois a esta meus olhos ainda conseguem envolver, ainda assim só por fora, pois quem há de saber o que vai por dentro de uma cabeça de alfinete? Poderia por acaso uma formiguinha definir a um alqueire de terra? Não, é demais você não acha? Talvez se essa mesma formiguinha pudesse a esse alqueire de terra ver de fora… Mas seus olhinhos… Tão pequeninos… Assim também não posso, não devo porque jamais conseguirei autodefinir-me. Novamente indago da possibilidade de definir algo no qual estou mergulhado. Se estivesse fora também não o definiria pois minha visão e entendimento não conseguiriam abarcar o todo. E mesmo sendo eu esse todo ainda assim não poderia definir-me a partir de um ponto focal.
Lá retorno ao ponto zero. O que sou afinal? Esta pergunta é procedente se eu partir do “o que sou?” para depois buscar “quem sou?”. Já o self, o Eu é outra história, talvez só uma consciência pairando no tempo e no espaço.
Bah! Deixa pra lá, não usarei mais o termo verdade. A verdade é muito complicada e escorregadia. Essa coisa de verdade leva-me à antiga lenda do camaleão. E o que poderei falar acerca dessa lenda além de que ela já mudou tantas vezes de cor que já não sei mais qual é a verdadeira? Destarte utilizar-me-ei de “realidade”. Mas o que é realidade e o que não é? Lá vem tudo de novo, já tô vendo tudo… Bem, não importa. Vou direto ao assunto…
luizbucalon