Noutra Cena, de Luiz Bucalon
Ai que saudade de mim
Saudade de domingo amanhecendo
Da mesa da manhã com bolinhos fritos
Do aroma do café no copo aparado
Ai que saudade de mim
Da rua de frente da casa, das pedrinhas redondas, da grama verde molhada
Saudade de caminhar sonhando
Saudade de mim, saudades de abraço a quem nunca abracei
Saudade de tudo o que não vi
Saudade de lugares que não trilhei
Olho à parede a capa dependurada
A chuva foi e veio o sol e ela aguarda a nova estação
Lá fora terra molhada frescor e ardência
O cachorro que cheira e faz buracos
Ao lado e acima da capa à parede destinta
Pendurados ali etiquetados todos os meus haveres
Coisas intocáveis com os dedos
Objetos de memórias, são sopros de tempos
Dores lembradas presas num gancho alí à parede muda imóvel silente
São dívidas e haveres e saldos de saudade
Bugigangas penduricalhos e conchas de mar
Há uma sacola na parede ao lado onde trago de tudo
Aprendizados e novidades pagos com ferimentos
Manchas de sangue incolor e inodoro
É sangue de dentro de dentro onde não há mais sangue
São marcas registros lembranças de antes do corpo
A casa tem tantos cômodos
Mas só uso um onde há janela
Debruço-me ali na soleira
Reviro a terra mexo na floreira
Ai que saudade de sede fome sono
Saudade de brilho perfume gosto
Um vento forte sobre as telhas erguendo uma a uma como dominós caídos
E a noite de meus olhos tem lua e luares
Relâmpagos de estrelas casadas
E quando recordo é um risco branco cortando os céus
E abaixo, as pedrinhas redondas e lisas
A gramínea verde de cheiro orvalhada
Saudade da roupa nova de domingo
Do sapato preto amarrado lustrado
Da calça vincada, a lã e o casaco listrado
Suspiro fundo olhando a tudo
Onde tudo passa tudo gira girando noutra xícara de café.
luizbucalon