O INVENTÁRIO DO MEDO
O sol deitou-se cedo no morro,
mas não houve reza para o descanso.
Zaíta, no susto do metal que ruge,
deixou a boneca de pano no canto,
com os olhos de botão fitando o escuro.
Havia um castelo de latas no meio da sala,
um reino erguido entre o café e a carência.
Mas o som que veio não era de brincadeira,
era o trovão seco que não traz chuva,
só o silêncio pesado da ausência.
”Guarda os brinquedos, menina!”
O grito da mãe era um escudo de papel.
Mas o tempo parou na fresta da porta,
e o lúdico foi atropelado pelo real,
deixando a infância exposta, descalça e torta.
Ficou o carrinho sem roda na poeira,
ficou o sonho de pano, sem dono, no chão.
Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos,
porque a vida, em sua pressa guerreira,
esqueceu de guardar o seu coração.
As mãos pequenas, que deviam colher o lúdico,
conheceram cedo o peso do chumbo e do luto.
No chão da favela, o brinquedo esquecido
é o mudo retrato de um riso interrompido,
de um amanhã que se fez absoluto.
Luiz Carlos Bucalon
(Baseado no conto Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos, de Conceição Evaristo)