Pelo simples ofício de escrever
Diário – Crônica – Prosa poética
Oh não me abandone musa louca! Fique aí sentadinha sobre o peito quente chocando letras lavrando palavras e frases azuis.
Quase 39 de febre, meu corpo doía como se tivesse levado uma surra de pau. Mas eu precisava escrever escrever escrever. Eu tinha que escrever porraaa. Escrever qualquer coisa mesmo que sem sentido pelo simples ofício de escrever. Escrever escrever escrever…
Peguei o celular, meu bloco de notas e saí a escrever o que vinha-me à cabeça. Qualquer coisa impublicável pelo mero exercício de escrever. Um cavalo alado, um cão que ladra, um animal grasnante, uma música na sombra, um vulto ao luar. Oh não me abandone musa louca! Fique aí sentadinha sobre o peito quente chocando letras lavrando palavras e frases azuis.
Põe o termômetro tira o termômetro, vem um comprimido e lá vem outro com chá de alho e limão arghhhhh! Tenho duas estórias em andamento uma por terminar e outra pra continuar e uma terceira plasmando na cabeça… Mas nada vem agora, sinto frio e repentinamente calor calor calor.
Vamos almoçar em algum lugar talvez Imbituba… Naviraí, Cascável, Porto Alegre, Curitiba, Garopaba tudo igual, pessoaa e lugares diferentes, situação e dias iguais, a mesma estrela, a mesma lua, o mesmo sol… Tudo tão igual, o dinheiro, o salário, a fé e a morte, é tudo tão igual. Tanto faz aqui quanto lá nada muda, a não ser o risco das estradas. Caminhões batidos, tombados, motoristas mortos são rapidamente substituídos por outros e o grande e infinito comboio de riquezas continua nas mãos dos mesmos de sempre. Nada muda. Viajar para quê? Maravilhoso rever os amigos! Abraçar os amigos! Esta é a única razão pra sair de casa, no mais sem novidades.
Escrever. Escrever me é urgente e preciso. É minha droga, meu vício, meu exercício de vida, é minha fé. Não se pode falar de mim sem se falar na escrita. Não pode se falar no cachorro sem sua relação com as pulgas. As letras em mim tal como as pulgas no cachorro me mordem, me coçam, me sugam. E não é uma ou duas não, são palavras e sentenças inteiras a causarem-me arrepios, calafrios e coçam muito até que as despeje, as escreva.
Novo comprimido! Comprimidos meus males não curam; Comprimidos no corpo meus ossos se curvam.
As palavras são mulheres ciumentas, quando menos espero lá vêm elas a me aporrinhar. Entram no meio das conversas, mostram-se despidas chamando a atenção ao desfilarem nuas por trás dos meus olhos. Posso sentir o gosto e o perfume bem no meio da conversa. Elas querem-me só, só pra elas, que eu não converse com ninguém. Ao sentar-me diante de alguém para conversar, as palavras fogem-me à boca e ocultam-se nas ideias coagulando em seivas repentinas. Quando escrevo me curo. Suores escorrem entre dígitos numa sangria desatada. Chega de comprimidos e termômetro, enquanto escrevo transpiro, desintoxico os poros, diluem-se as dores. As palavras têm vontades e destinos próprios, são senhoras de si e de mim, sou escravo da palavra.
luizbucalon