Minha Poética

Ser Perpassado, de Luiz Bucalon

Acordei numa das tantas calçadas da cidade
Encontro-me andrajoso e a esmo vagante
O corpo coberto por infectas pústulas vis
Ergo-me sobre os já tão calejados calcanhares
Meus olhos mareados buscam a luz
Ainda trôpego vacilo em meus passos
Vejo as ruas, vejo os carros, os edifícios
É tudo tão grande e frondoso à minha frente
Fito pessoas bem trajadas e comprometidas com quase tudo
Fito-as novamente, eu as miro de olhar fuzilante de mendicidade
Um cão de condição semelhante abana-me o rabo de olhar triste
Elas, as pessoas passam por mim
Elas magicamente passam através de min
Apalpo meu corpo de dor e de ruínas
Ainda sinto-o tão concreto de desejos tão compactos
Entre a multidão claudico entre olhares vazios e sem sentido
A constatação, algo muito maior do que a mera sensação de ser visto
Sim de ser visto no ferir e referir da retina
Sim eu era realmente visto mas incompreensivelmente não enxergado
Senti-me ali tal janela envidraçada e limpa
Senti mesmo o corte rente dos tantos olhos a abrirem-me o peito
Impalpável, oco, vácuo, transparente, hialino, diáfano
Ali sob os olhares inertemente impassíveis
Ei senhor, oi senhora, menino, menina Ei… e nada nada além de mutismo
Será estou morto? Serei eu apenas uma alma penada e desencontrada em seu destino?
Será que estou e já não estou? O que há comigo? E o que há com o outro?
Mas vejo as manchetes dos jornais nas bancas de revistas
Sim posso ler daqui “políticas públicas”, “direitos humanos”, “cidadania” blá-blá-blá
Eu vejo tudo e ainda sinto muito mais e mais
Sinto até o trespassar, o pungir de olhares frios e metálicos a cortarem-me a carne varando-me os olhos
Sim sim eu sinto na alma bem ali sob a epiderme da epiderme da pele
Saio do passeio em direção à rua só pra ver o que acontece
A ambulância passou por mim, mas não ao meu lado
A ambulância passou através de mim, por dentro e sem obstáculos
E logo depois os policiais e as viaturas
Os professores e seu punhado de livros
Ternos, gravatas, siglas, projetos, programas tudo tudo num piscar de olhos sem dentes nem sorrisos
Logo cai a intempestiva chuva e a noite dos viandantes é bem mais escura…

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

3 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *