Um Minúsculo Furo
Ensaio filosófico – Poética – Microconto
Em menos de um mês perdi vinte centímetros na altura e também vinte quilos no peso. Mandei minhas roupas todas à costureira.
Um áspero quase à palma da mão, será espinho? Ponto mínimo e tão saliente. Fico observando e ele não aumenta nem diminui, está sempre igual.
Sinto à palma da mão um torvelinho de força, um vórtice de energia, tenho um universo bem na minha mão direita, aos poucos gravito em seu entorno.
Mudando de assunto… Talvez não… Dia a dia tenho notado folga, sobras em minhas roupas; elas poderiam diminuir, encolher, mas nunca esticar nem aumentar no tamanho. O mais provável então, é que eu esteja a diminuir, a desgastar-me.
Olho novamente para a minha mão e nada de anormal percebo a olhos nús. Com a lupa também nada vejo além daquilo que vejo todos os dias. Hum… Talvez um microscópio…
Hebert tem um microscópio dos mais modernos e avançados, qualquer dia o utilizarei. Continuei olhando minha mão com olhos mergulhados de profundezas. Espera aí… Senti um estalar de ossos guardados em caixa pequena; senti, não ouvi pois para isso precisaria de um microscópio para o ouvido também hahaha.
Mais um dia e minha calça estava maior que eu, no outro dia dava até pra dobrar pra cima as suas pernas, as mangas da camisa ultrapassavam já a ponta dos meus dedos e assim a cada dia mais e mais…
Lembro ainda do umbigo cósmico de onde tudo partiu, tudo expandiu nessa odisséia multicor. Tudo a partir de um tão tão minúsculo pontinho; um pontinho do pontinho dividido pela milionésima parte. Se tudo partiu de um micro micro pontinho e cresce invadindo as fronteiras do nada imensamente maior, talvez um dia, num dado incerto momento tudo volte, sugado retorne para dentro do umbigo de onde tudo saiu. Não, não é loucura da minha cabeça não.
Então é quase certo que estou diminuindo mesmo, estou a perder tamanho, massa e logo o volume.
Uauuu!!! Hoje minha calça caiu, o cinto dá três voltas ao meu redor! Novamente concentro-me em minha mão; esse pontinho boca do mundo é faminto. Sinto meus ossos como a envergarem para uma caixa ainda menor e minhas carnes… Minhas carnes dobradas numa mala de viagem. Não, dobradas não, mas moídas, sim esse umbiguinho em minha mão devora-me sem parar e cada vez com mais apetite; um leão em disparada contra sua presa.
Em menos de um mês perdi vinte centímetros na altura e também vinte quilos no peso. Mandei minhas roupas todas à costureira.
Eu descobri que a vida em todas as suas manifestações segue um ritmo lento de brisa com a força sonora de uma marreta sobre a bigorna. Um ritmo assim como eu diria… Pendular! Um ritmo pendular, naquele embalo de rede que vai até uma certa altura e depois volta até a mesma altura para o lado oposto. E quando estou deitado à rede nesse balanço relaxo e até durmo de tão alentado que fico. Eureka!!! É isto! A l e n t o… Alento, ritmo, pêndulo enfim respiração.
O pêndulo do cuco sai do auge do dia em declínio entrando para a noite até seu ápice que em seguida declina para o clímax do dia… Ondas de mar no seu incessante ir e vir e sempre chegando e partindo e sempre partindo e chegando. Numa subida da haste móvel presa a um centro a primavera de amanheceres em seu próprio amanhecer, depois frescor tudo florido. Num dado tempo indefinitivo o pêndulo tempo traz o quase imperceptível declínio e vem tímido menino e todos ainda verão. A seguir todo o novo e sempre igual movimento e caem em minhas mãos de outono as folhas; depois então o gélido do meu corpo invernado.
É estou ficando a cada instante menor, pequeno mais pra menos… Minhas roupas são de garoto chutando lata a caminho da escola. Mas minha mão não aumenta com tudo o que drena de mim e nem pode pois é o furo, o umbiguinho que está a devorar-me ou quem sabe eu apenas com saco cheio de tudo esteja vazando de mim, vazando de tudo. Hahaha eu ó, v a z e i!
Eu parti de um minúsculo pontinho e retorno ao minúsculo pontinho, pouco a pouco e quase sem sentir. E sem perceber toda essa grandeza foi constituída de nada, constituído por outros diversos nadas e a seguir desconstituída em nada perfazendo outros tantos e não menos diversos nadas. Um furo é tudo o que sou e o que sempre fui desde a expansão atômica. Pois o todo que sou eu e que é você é um composto de pequenos nadas reunidos.
luizbucalon