Tudo é o que é, de Luiz Bucalon
Gosto do riso sem dentes da vida, ela simplesmente ri sem quê nem porquê, ela ri de modo plástico e suado.
E eu aqui tão inútil, sempre fui o inútil lutando para escrever o mais inútil dos poemas que jamais tenha cometido em toda a minha inutilidade.
Óh vida vã! Sois louca e desprovida, desprovida de todos os sentidos, quaisquer que sejam eles.
Aliás nem sei o que sinto, se é que realmente o sinto, talvez não sinta mais nada, quiçá nada sinta desde que nasci.
E que o meu nascimento não tenha sido lá uma grande coisa, isso eu sei, só não sei porque isso ou aquilo mas acho que sei. O sei pelo fato de que se eu não hovesse nascido o mundo seria igual.
Os astros continuariam o seu sincronizado giro, as galáxias explodiriam em novidades sempre que tivessem de dar à luz.
E a vida? Bem esta continuaria a sorrir, e se agora depois de nascido, bem nutrido e até meio crescido vier a morrer, ainda assim nada será abalado no curso da vida. E nenhum destino será alterado ainda assim, nenhum desatino será perpetrado em memória de mim.
As lojas abrirão, a mão do pedinte continuará estendida, os pássaros gorjearão a sua indiferença. O câmbio o dólar, a guerra, o terno, a política e a filosofia seguirão a marcha constante e epidérmica dos dias.
E a vida? Ah! A vida! Esta seguirá em seu inexpressivo sorriso sem dentes.
luizbucalon