Escritores escrevem, de Nelson Alexandre
Escritores escrevem. Levei muito tempo para entender isso. Bati muito com a cabeça na parede. Fiquei feito pardal quando é posto dentro da gaiola. Mas não dá para ficar se sentindo assim o tempo todo, como um bicho que sabe voar e está preso dentro da gaiola. Não dá. Há um momento de libertação. Tem de ter. Mas antes disso, você come o pão que o diabo amassou e pede a Deus uma luz. Um parágrafo que seja. Uma mísera linha.
Isso funciona como uma boia de salvamento para um náufrago em alto mar. Mas nem todos se salvam num naufrágio. Isso é o mais triste.
Mas tudo começou quando eu tinha entre oito e nove anos e possuía uma caderneta de cor salmão que vivia rascunhando uns negócios esquisitos que um dia me disseram que era poesia.
“Isso é poesia, menino.”
“É?”
“Lê outro pra mim.”
“Tá bom.”
Minha primeira ouvinte e crítica literária foi uma mulher que aparentava ter entre 55 ou 60 anos, segurava um copo de scott com duas pedras de gelo dentro, enquanto se dependurava na janela de sua casa, uma bela casa de madeira pintada com uma cor marrom não muito tradicional, ouvindo um menino de estrutura óssea frágil declamando alguns poeminhas “verdes” como ele.
“Um dia você ainda vai escrever um livro.”
“É?”
“Ah, pode acreditar!”
“E dá pra ganhar dinheiro com isso?”
“Aí você já está sonhando demais.”
Depois disso, não me lembro mais se voltei a ficar de frente para aquela janela declamando versos para aquela flor murcha. Lembro que a primeira vez que experimentei uísque foi na casa dessa mulher. Lembro que vários caras jovens frequentemente dormiam por lá. Lembro de um peruano que vivia bebendo uísque, bom uísque, ele dizia. Lembro que ele colocou uma boa dose para mim que, sem me fazer de rogado, fui logo colocando tudo para dentro. Ele ria e estalava os dedos. O uísque fez com que eu me sentisse como se estivesse caminhando em solo lunar. Não havia mais gravidade. Eu era uma das folhas soltas da minha caderneta salmão. Um poema que se mistura com a brisa e depois se desintegra com o vazio.
“Bebe mais um, bebe mais um!”
Ele ria e estalava os dedos falando um portunhol que ficava mais enrolado em cada momento em que bebia mais uísque. Bebi mais uma dose, e por um instante, já não estava mais na lua, tudo ficou avermelhado como a superfície inóspita de Marte.
Comecei a rir como uma hiena louca, junto com aquele peruano maluco que estava enchendo a cara com o uísque da minha primeira crítica literária. Foi quando ela nos pegou com os copos na mão.
“Que diabo é isso!?”
O peruano ria e estalava os dedos.
“O menino é um bebum.”
“Você deu uísque pra ele?”
“Só um pouquinho, ele leva jeito.”
“Você vai ver o jeito.”
O peruano foi levando umas bofetadas de mão aberta da minha crítica literária, mas ele não era, definitivamente, um cara violento, continuava rindo e estalando os dedos, enquanto levava umas boas bordoadas naquela cabeça cheia de alegria etílica e cachos dourados.
Era o fim dos meus saraus e do meu primeiro porre.
Nelson Alexandre