O Desabafo do Autor
Manifesto – Crônica – Poética -Sátira
Essa cidade, esse país jaz num profundo e imenso covil de chacais, desculpem-me as virtuosas senhoras e os mais formosos varões.
Escrevi isto num momento de depressão, frustração e dor, vejamos… Como intitularei… Restos de uma poesia Inacabada numa cidade nua e suja ou o poeta ainda não morreu? Ressurreição ou ainda sou o sobrevivente elemento da resistência? Deixa pra lá, vamos ao assunto.
Aqui estou eu nu no meio da madrugada permeado por um silente motivo, na surdina, na calada. Acendo um cigarro e medito: será melhor escrever sobre a tensão da barata ainda em desenvolvimento que, perseguida atinge as raias de uma taquicardia ou sobre a onipotência da lagartixa que a persegue inexoravelmente? Não sei se escrevo minhas queixas de amor ou as lamentações do cotidiano da cidade. Do que me adiantaria? Pois de qualquer forma eu não seria ouvido mesmo e ainda que fosse por certo não dariam-me crédito. Crédito: é o que menos poderia haver a respeito de um poeta.
Hoje, aliás nem sei, talvez fora ontem… Talvez o ontem tenha caído no dia de hoje… Talvez comecei ontem e só terminei hoje, então pra mim foi tudo num dia só pois faltou-me o hífen entre noitedia, você me compreende a pausa da madrugada que separa a noite do dia. Ah que saco, noite e dia são uma coisa só, um continua o outro. Deixa estar, importa é que decidi livrar-me do pesado fardo da graça tão desgraçada de escrever. Comecei pela estante e continuei pelos armários e caixas – incrível como eu estava em todos os lugares, por todos os cômodos. Saí numa grande operação limpeza, uma caça às letras. Depois desta força tarefa o grã finale, com apenas um palito – aquele da Fiat Lux que não é carro nem sabonete – lá estava eu feito Nero no climax da loucura gargalhando e ateando fogo em tudo. Que poder descomunal! Aquilo tudo cheirava tão mal… O fedor vinha das minhas mais abostadas idéias que estalavam sob o fogo. Utopias sagradas… Fogueira da inquisição… O santo ofício… O sôro ofídico das santas cruzadas… Das antas usadas (risos de insanidade). Incinerei-me juntamente a tudo, era uma questão de afinidades.
Cansei. O homem poeta morreu tanto quanto a Deus. Acho que vou encomendar uma santa missa para a minha santa alma em alguma santa igreja. Acabou, tudo ruma para os mais santos dos infernos para lá dos infernos de Dante. Sim Dante, aquele da Beatriz. Acabou uffaaaaaa… Eu já não aguentava a tantos santos assim… Eu sou um santo nos últimos dias (a semelhança não faz aqui qualquer referência viu).
O que importa mesmo aqui é todo o simbolismo contido no tresloucado ato que é o de matar a tortura inspiradora da poesia. Assassinar a musa é dar a extrema unção à Hipocrene e se Pegasus, aquele cavalinho metido a gaivota aparecer por aqui, irá para o saco também.
Enfim nada mais… Deixo aos hipócritas a hipocrisia, aos estúpidos a estupidez, resguardadas as devidas proporções e respeitadas as raras exceções. Essa cidade, esse país jaz num profundo e imenso covil de chacais, desculpem-me as virtuosas senhoras e os mais formosos varões.
Cansei de implorar, de lamber sapatos, de correr atrás de automóveis feito cães de satjeta. Tudo por um patrocínio, por um mísero apoio cultural. Prefiro hoje dar milho aos pombos a atirar minhas pérolas aos porcos. Aprendi que não preciso aprender, pois se aprendo é para ser, e quem quer ser? O lance é ter! E não precisa ter muito, até mesmo um bom repertório de conversa fiada para boi dormir já está de bom tamanho. A ser intelectual seja garanhão e sinta a diferença por entre as calças.
Já conheci algumas escritoras e artistas que por serem agraciadas pela deusa da beleza já deitaram-se em tantas camas quanto o dobro de páginas de suas obras. Mas o pior é que ainda não foram lidas como se devia. As maiores e piores barbaridades acontecem sob a égide da moral e dos bons costumes. A sociedade é uma indústria de pervertidos. Agora pergunto: do que alimenta-se o espírito do poeta? Revolução? Insanidade? Rebeldia? Masoquismo? Indiferença?
luizbucalon