Depressão Pós Parto, de Lorena Ferraz
Essa criança está com fome:
-A solução será dar leite de vaca. – Não.Será o leite em pó. – Irá perder muito peso… – Essa criança chora e seu choro é de fome!
Leite em pó leite de vaca leite em pó leite de vaca…
E todos os comentários teciam uma vasta bula.
O silêncio era devastador. Sentia-me atordoada diante da nova realidade que se apresentava. Quando percebi estava mergulhada numa das piores vivências que um ser humano pode ter.
Responsabilidades diversas e a maior e assustadora responsabilidade que é a de ter um serzinho totalmente dependente, frágil e inofensivo dependendo única e exclusivamente de um “pedaço de ser”. Sim, pedaço de ser, eu já não era mais a mesma. O cansaço me absorvia a passos largos e meu corpo em contrapartida, definhava dia após dia. Assim foi comigo.
Acabei não me enxergando nem mesmo no espelho. Nem mesmo eu acreditava no que estava à minha frente. Sentia-me exausta.
Meu eu estava recôndito e do nada passei a ser extremamente tênue. Acreditava ser um sentimento perene.
Sentia-me um resto com o somatório de cansaços, feridas entreabertas, sorrisos mal ridos, frustrações.
O corpo não correspondia mais, tamanho era o desencanto. Tornei-me demasiadamente e insuportavelmente suportável. As reações da carne absorviam-me como um câncer devora sua presa. O caminhar tornou-se absolutamente insuportável.
Sentia o sangue das trevas vivenciando o tempo cronológico de forma surreal. Sentia-me ser devorada assim como um faminto devora um prato de comida, quando de bom grado lhe é oferecido.
Deixei-me devorar de uma forma tão fugaz esquecendo minha própria essência.
O fundo é assustador, surreal, macabro, doentio e te devora querendo tua alma. Dói tanto, tanto que chega a doer na carne.
Como reverter esse caminho de mão única? O que fazer?
O abismo passa a ser o único caminho, obscuro, inelegível mas pontual.
O serzinho olha e contempla sem ter a mínima noção do que possa estar acontecendo.
Teus fantasmas procriam-se.
O mundo? O mundo cobra constantemente por uma atitude, uma reação – que não vem. Faltam forças.
E nesse despencar profundo apenas amarguras, o amargo que te faz questionar de ou o por que de teres nascido.
Sentia-me um resto. Um resto humano. Respiro inconscientemente, apenas respiro.
Ao redor uma fusão de vozes, figuras, cores e palavras que ecoam na mente.
Temerosa por meus próximos passos tão tão tão… Tão fora da realidade do que um dia fora sonhada, idealizada.
Cheguei ao fundo onde nem eu mesma me reconhecia, até que de repente reflito minha atual imagem em mim mesma, e um longínquo feixe de luz surge muito temeroso e eficaz.
A princípio lembrava-me alguém que não conseguia distinguir ao certo quem era. Mas um feixe de luz surgiu… Já não estava tão submersa nas trevas!
Me vem à mente a figura de um serzinho que sorri de forma tão real, e as memórias começam a dar vazão naquele emaranhado escuro.
O serzinho sorri e chora com a mesma intensidade: hora de trocá-lo, alimentá-lo!
Lorena Ferraz