Um Balé de Impulsos, de Luiz Bucalon
Abandonada lá estava ela
De pernas abertas à manhã
Por toda a cama tão bela
Nua estava linda gosto afã
Langerie atirada sobre o lençol
O vestido adormecido ao chão
Os colares e brincos em caracol
Entre anseios adormecidos vão
Ao longo das pernas eu entrevia
Tão vermelha flor de satisfação
Pétalas coradas inertes no dia
Pulsavam a mim desde o coração
Como é linda divina esta rosa
Ainda recordo seus tremores
No travesseiro uma surda prosa
Os dedos crispados langores
Seus seios subiam desciam
No ritmo da noite passada
As mãos trêmulas denunciam
Minha boca na pele eriçada
Ressona suspira profundo ser
Sobressalta-se ainda alheia
Após o desmaio no amanhecer
Alonga seu corpo de sereia
Vira-se de bruços num gemido
Sob a cabeça ainda os braços
Na garganta um silêncio premido
Abre o peito para meus passos
Ajoelhado à cama observo arredio
Bem de perto quase tocando enfim
Meu hálito quente lhe veste arrepio
A fenda contrai em espasmos assim
Em profundo sono ela toca em mim
Os dedos pressentem os lábios seus
Na boca ascende um sorriso marfim
E seus desejos incendeiam os meus
Sussurro palavra num beijo de ouvido
E a trago calada ao meu corpo calado
Corpo a corpo tão bem comprimido
Ela entregue mal olha e vira de lado
Algemados e juntos nesta paixão
De cima a baixo o corpo abunda
Me aventuro num passeio de mão
Entre espasmos meu corpo a inunda
E outra rosa ainda botão oculta
De vontade minha boca saliva
Ardendo o olhar meu toque avulta
E tu ali menina mulher uma diva
Bem ao alto meus dedos a cravo
Arranho descida desde a nuca tua
O desejo prendo tuas ancas travo
Meu corpo em canto tu danças nua
A respiração acelera o peito arfante
Roças minha barba o teu rosto cora
Dengosa se esfrega e toda amante
Saudade de cio embriagada e chora
Serpenteia seu corpo implora
Sedenta e abrasada ela geme
“Vem faz-me tua mulher agora
É bem agora meu corpo freme”
E todo o desejo que se urgencia
É na carne onde o calor pronuncia.
luizbucalon