Minha Poética

Sorriso Fina Flor

Poética – Diário – Conto

Ele, o sorriso, pode até brilhar e reluzir a brancos dentes, ou mesmo na falta destes, mas ao menor sinal de ser notado e apontado pronto, lá bate ele em furtiva retirada.

Olhei em linha direta e frontal ao espelho. Um rosto encarquilhado de rugas e já sem viço. Um rosto vazio e inexpressivo, um vazio de expressão.
Até forcei um sorriso para melhorar, tentei encontrá-lo bem mais ao fundo de mim, mas o sorriso não se força. Sorriso é liberdade e como a liberdade é espontâneo.
Então não sorrirei antes de encontrar graça e alegria, já que estas também são livres e espontâneas.

Ainda lembro das fotografias, dos quadros, dos binóculos e dos antigos e desaparecidos fotógrafos…
Só tirávamos fotos em ocasiões especiais ou em momentos de pura alegria e contemplação. Mas eis que à hora da pose sumia-me o sorriso, acho que ainda acontece comigo.
“Diga xis”, sugeria-me o fotógrafo, ou então “olha o passarinho!”, o que nunca cheguei a entender muito bem era essa coisa do passarinho, pelo menos nunca o vi, apesar de procurá-lo e lá saía eu na foto com o olhar perdidamente oblíquo e perpendicular. No caso do xis era bem pior, pois saía-me um arremedo amarelo de sorriso, que nem sorriso era senão constrangimento. Bem, fora isso eu saía sempre sério, sisudo e com cara de quase nenhum amigo.
É estranho porque diante do espelho e da máquina fotográfica o meu sorriso dá em fugir, ele simplesmente apaga, se recolhe e desaparece e eu fico ali bobo e abestado buscando por ele.
É como se eu tivesse uma bexiga, um balão inflado lindo e colorido nas mãos, que bem no exato instante de mostrá-lo a todos ele estourasse, pois então, o desconcerto é quase o mesmo.
O sorriso é tímido por sua própria natureza. Ele até desponta e aparece às vezes largo, às vezes contido, mas dá o ar da sua presença. Mas repentinamente sem que sequer percebamos ele nos deixa no escuro. Ele, o sorriso, não gosta de ser observado. Ele, o sorriso, pode até brilhar e reluzir a brancos dentes, ou mesmo na falta destes, mas ao menor sinal de ser notado e apontado pronto, lá bate ele em furtiva retirada.
Furtivo: este é o termo apropriado, o sorriso é furtivo; ele vem furtivamente e furtivamente se vai, sem mais nem o quê.
O sirriso é como o pensamento; não posso dizer: “agora vou pensar” ou “agora vou sorrir”, ambos nunca saem perfeitos. Assim compulsoriamente nada se dá em se tratando de sorriso. Forçando-se uma situação surge no máximo uma imitação, barata diga-se de passagem, um arremedo distorcido e nublado.
A imitação ou cópia do sorriso é flagrante e grosseira que chega a arder os olhos e arranhar a pele de quem o recebe. O sorriso amarelo e artificial é um fenômeno estéril, vazio, sem acontecimento, contágio ou encantamento.
Na verdade o sorriso é livre, é espontâneo, mas também é tímido e fugidio. O sorriso é uma luz que se vê, pois é impossível não vê-lo já ao longe. O sorriso é por vezes audível e noutras vezes, até sentido na pele, nos poros, na raiz capilar. Mas ele, o sorriso, jamais será tocado, apanhado, apalpado, salvo nos devaneios poéticos, e nisto iguala-se também ao pensamento, um de seus fios condutores.
Voltando ao espelho bem, o espelho é uma espécie de máquina fotográfica, já que reflete minha imagem como se uma fotografia fosse, com a diferença de manter a mobilidade daquilo que mostra no tempo, enquanto a fotografia apenas congela o tempo da imagem num delimitado espaço.
Um sorriso ainda que através do espelho, mantém ainda a sua mobilidade e contágio, mas o sorriso preso numa fotografia torna-se estático e plástico, não comove mais.
No espelho o sorriso é ainda livre e espontâneo, tímido e fugidio; já a fotografia traz um sorriso estanque, paralisado e instantaneamente encapsulado, assim como borboletas asfixiadas colecionadas entre molduras e vidro.
O fato é que um sorriso aprisionado já não é mais um sorriso, ele deixa de sê-lo no exato momento da sua captura. O sorriso só o é de fato se em liberdade de sentidos, pois não é aos ventos que se diz: “liberte seu sorriso”!
Bem, aqui estamos, eu queria mesmo era falar do sorriso, mas para isso tive de lançar mão do espelho e até da fotografia, pois como eu mesmo afirmei, ele o sorriso, é tímido e fugidio, e acrescento ainda passional e muito temperamental, e sem essa tática com certeza ele, o sorriso, fugir-me-ia. E de tão bem sucedido em meu intento, sem razão e nem porquê, sinto em todo o meu corpo agora a mais fina flor dos sorrisos!

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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