A Vontade de Matar, de Luiz Bucalon
Análise crítica sobre O Mineirinho de Clarice Lispector
Você até pode lutar sozinho contra um bandido, mas contra um Estado…
“A vontade de matar” coloca marginal e cidadão, homem de mal e homem de bem, autômato humanóide e pessoa humana, crime e justiça tudo num só patamar de questionamento.
A estupidez, a violência e a desumanidade integra e constitui tanto a um quanto ao outro; um por usar da violência como fim e o outro por usar da mesma violência como meio.
O primeiro a descoberto e sob a mira da lei estupidifica seus fins de justiça em busca dos meios de subsistência, o segundo acobertado sob o manto da mesma lei estupidifica seus meios de existência em busca dos fins de justiça; de igual forma ambos estúpidos, pacientes e agentes.
A mão do bandido que ceifa vidas e a mão do policial que ceifa vidas, qual a diferença? Onde entra a justiça?
O uso da violência é a incapacidade de resolução pacífica de conflitos, e isto aplica-se tanto a cidadãos comuns quanto aos agentes da lei.
Neste caso, independente de quais e quais papéis representam os atores sociais em questão, antes e sobretudo são homens e esta terrível “vontade de matar” é atributo de ambos.
Se Mineirinho usa da violência para descumprir a lei e o policial a usa para dar cumprimento à mesma lei, salvo as diferentes finalidades os meios são iguais tanto para um quanto para outro; é notória a semelhança e identidade na ação entre ambos.
Mas talvez e isto foi da situação e circunstância em que se deu o fato, não houvesse outra forma possível para deter-se o criminoso, então fez-se necessário o uso de meio idêntico ao do bandido pelo policial, o que já equipararia a ambos num mesmo nível, já que com a perícia de agente legal um tiro fosse desferido contra Mineirinho, com azar talvez dois, mas o que justifica o disparo de treze tiros, treze projéteis desferidos contra a carne de um só homem ao alcance das mãos senão uma terrível e avassaladora “vontade de matar”?
Clarice Lispector sentiu em sua própria carne o décimo terceiro tiro como se no lugar do destinatário estivesse, pois no final das contas todos são destinatários e quando não remetentes destas mesmas violência e barbárie. No contexto social e histórico vivido não há ente em separado e indiviso, todos integram uma só e caótica massa crítica, de modo que o que é permitido, aceito e silenciado para um também o será para todos.
Por outro prisma, se naquele momento e realidade histórica a lei era tão dada a excessos em nome da proteção social, o era também em nome da “normalidade” política, cenário propício para que um “suspiro” fosse recebido como “tempestade”. A lei que defendia era a mesma que ofendia. Nada de sobressaltos na dita e decantada ordem política e social brasileira.
Você até pode lutar sozinho contra um bandido, mas contra um Estado…
luizbucalon
Imagem disponível na Revista SENHOR, junho de 1962, ano 04, n°. 40.