Minha Poética

A FLUIDEZ DA HERANÇA

O Rio que Corre no Olhar
​Procurei no tempo a cor exata,
No brilho baço da memória antiga,
A tonalidade que o destino maltrata
E que na face da mãe se abriga.

​Seriam verdes, como a mata virgem?
Ou azuis, da cor de um céu sereno?
Qual seria a vertente, a origem,
Daquele olhar, por vezes, tão pequeno?

​Não era o mar, em sua fúria vasta,
Nem a lagoa em seu silêncio fundo;
Era uma cor que a própria dor afasta,
Um brilho que carregava todo o mundo.

​Vi, enfim, o que o tempo escondia:
A cor não era tinta, nem desenho,
Era o reflexo da luta e da agonia,
Do suor vertido com tanto desempenho.

​Os olhos dela eram feitos de correnteza,
Nascentes de um choro que nunca seca,
Um desaguar de força e de beleza,
Que a própria vida, em sua lida, peca.

​Eram olhos d’água, de rio, de pranto,
Espelhos de um ontem que ainda resiste,
Envoltos num manto de acalanto,
Onde a esperança, mesmo ferida, existe.

​D’água que inunda, que lava e que cura,
Olhar-corrente, ancestral e profundo,
Que guarda em si a mais pura ternura
E a história de quem sustenta este mundo.

Luiz Carlos Bucalon

(Baseado no conto Olhos D’água, de Conceição Evaristo)

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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