A FLUIDEZ DA HERANÇA
O Rio que Corre no Olhar
Procurei no tempo a cor exata,
No brilho baço da memória antiga,
A tonalidade que o destino maltrata
E que na face da mãe se abriga.
Seriam verdes, como a mata virgem?
Ou azuis, da cor de um céu sereno?
Qual seria a vertente, a origem,
Daquele olhar, por vezes, tão pequeno?
Não era o mar, em sua fúria vasta,
Nem a lagoa em seu silêncio fundo;
Era uma cor que a própria dor afasta,
Um brilho que carregava todo o mundo.
Vi, enfim, o que o tempo escondia:
A cor não era tinta, nem desenho,
Era o reflexo da luta e da agonia,
Do suor vertido com tanto desempenho.
Os olhos dela eram feitos de correnteza,
Nascentes de um choro que nunca seca,
Um desaguar de força e de beleza,
Que a própria vida, em sua lida, peca.
Eram olhos d’água, de rio, de pranto,
Espelhos de um ontem que ainda resiste,
Envoltos num manto de acalanto,
Onde a esperança, mesmo ferida, existe.
D’água que inunda, que lava e que cura,
Olhar-corrente, ancestral e profundo,
Que guarda em si a mais pura ternura
E a história de quem sustenta este mundo.
Luiz Carlos Bucalon
(Baseado no conto Olhos D’água, de Conceição Evaristo)