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De minha vida com Mariinha, de Zeca Corrêa Leite

Nem quis olhar pro menino quando nasceu, virou a cara e disse que era invenção minha, então eu que desse conta, tirasse o peito, trocasse a fralda, passasse talco. Não entendi a maldade de Mariinha, mas ela tinha um gênio forte mesmo, era coisa da mãe e eu carecia de entender esses modos dela. Peguei e cuidei de Deolindo com a ajuda de dona Ema que nunca me faltou, graças a Deus.
Pois bem, o tempo passou e Mariinha, vaidosa e espertinha, fazia o almoço toda correndinho, o rádio ligado num programa que nem lembro o nome, arrumava um pedaço da mesa para eu comer e na outra metade esquecia o sal, a farinha de trigo, o rádio de pilha ligado e ia embora, nem sei para onde ia, mas saía dizendo “volto depois das duas”, mas só chegava as cinco, cinco e meia, um quarto pras seis.
Não ligava, não. Eu vinha e comia apressado, um olho no prato e outro no balcão que freguês não faltava. Ditinho, me veja uma vela, Ditinho me passa uma pinga e olha Ditinho de trás do prato pra junto do balcão. Tinha hora que queria ver Deolindo perto de mim e pedia licença, dona Ema vinha com o menino, mais filho dela que meu.
E não é que houve descuido? Minha Nossa Senhora, a vida que passei com Mariinha… Quando a gente bateu na cabeça o que estaria acontecendo já a barriga queria começar a crescer, pois Mariinha era forte e gravidez não deixava ela sem sossego, não. Mas me desassossegou quando soube. Criou confusão, que eu era um traste, que isso, que aquilo. Que tormento me dava Mariinha, mas eu amava ela e então ficava quieto que quando um não quer dois não brigam. Passou o tempo, a barriga cresceu e mais um parto veio na nossa casinha com bar na frente.
Toca arranjar lugar e cadeira pros vizinhos, fregueses, gente que ia chegando com flanela, goiabada, bolacha. Coisas compradas ali na vendinha da gente mesmo e depois trazida de presente. Tinha nascido uma menina, coisa mais bonita deste mundo, santo Deus!
Mariinha do mesmo jeito da outra vez. Virou o rosto e nada de olhar a criancinha, mais chorona até que Deolindo. Deolindo ia fazer três anos, ardia em febre de sarampo, demorou para ver a irmãzinha. Eu nem sabia mais o que fazer para Mariinha, então ficava calado no balcão, espantando moscas. Ela ficou ainda mais zangada comigo, que parecia lebre, que não ia ficar em casa cuidando de bunda suja, que ia para a casa da mãe ver filme na televisão. Que esperasse ela sair da dieta. Que eu ia ver só. Que eu enfiasse a menina nos braços de dona Ema.
Alguém deve ter escutado, fuxico deve ter corrido. Muito séria, mas muito educada, dona Ema veio e falou que cuidava de Deolindo, mas a menina era encargo do pai, que ela pegara amor no menino e quando ele crescesse ou a gente se mudasse, lá ia ele embora, ficando a saudade no coração dela. Ela podia dar uma ajuda se fosse preciso, estava à disposição, mesmo o marido, para levantar de noite e pegar o carro e levar a criança num médico se, Deus que proteja, necessitasse. Ficou tudo certo, o menino continuaria passando a maior parte do dia com “tia Ema”, mas a menina ia ficar em casa. Me entristeceu a conversa, não sei porque, e fui, numa terça-feira, me lembro bem, e registrei o nome de Gracinha na menina. Quando cheguei em casa Mariinha tinha saído. Era seu primeiro passeio e até fiquei contente porque ela ia aparecer depois mais contentinha por ter passeado. Ela era vaidosa e gostava de sair pintada, andar de ônibus, mexer na cidade.
Dois anos mais se passaram e eu cuidando de Gracinha e dona Ema de Deolindo. As crianças engordando e Mariinha dizendo que queria emagrecer, que no seu metro e cinquenta e cinco, sessenta e sete quilos era peso demais. Ela que nunca ligou pra preso, passou a se pesar. Isso foi até motivo dela tirar meu sono, me fazer passar fome porque não queria ver cheiro de comida.
Cuidei de dar um jeito na vida e ter Gracinha perto de mim, uma menina que despontava linda como uma flor. Chorava que era barbaridade, manha mesmo. Nem fome, nem dor, gosto por chorar.
Tá, o tempo foi passando e o barzinho a gente ia tocando desde manhãzinha porque como diz o povo Deus ajuda a quem cedo madruga. Mas tem quem levanta tarde e dá pernada na calada da noite. Assim fez Mariinha, conforme vou contar.
Ela arrumou as coisas e nem vi por que a gente cuidando do balcão, Ditinho, duzentos gramas de linguiça, Ditinho me vê uma caixa de fósforos, será que chove amanhã, Ditinho? Pois eu nem vi. Era de quinta para sexta-feira, de 23 a 24 de abril. Só sei que fechei a vendinha e Gracinha estava meio com resfriado, pus ela de junto de mim e acordei manhã seguinte, Gracinha dormindo ainda, sem febre, sem nada.
E Mariinha que vi de noite pintando as unhas? Nem rastro deixou para ficar lembrança do seu sapatinho. Foi embora de mala e cuia. Cocei a cabeça, procurei minha sogra, pois é dona Servina, sua filha sumiu de casa
e levou as roupas, chinelo e radinho. Que faço agora com duas crianças com pai e sem mãe? Dona Servina olhou firme, pensou bastante e disse que era assim mesmo, a vida na vila atrás do balcão não era coisa para a filha dela. E assunto encerrado.
Voltei para casa e quase vinte anos fazem que isso aconteceu. Deolindo é rapaz estudado, considerado como filho por dona Ema. Moram mais perto do centro. Depois que o marido morreu dona Ema alugou a casa e procurou apartamento. Faz quatro anos que eles se mudaram e nunca mais vi Deolindo. Sei que ele tem vergonha do pai caipira e pobretão. Entendo meu menino. Deus que cuide dele.
Gracinha cresceu do jeito da mãe, baixa e atarracada. Gosta de se pintar, passear pela cidade, ouvir rádio o dia todo. Nunca me ajuda no balcão, xinga o bar, quer ser moça de televisão. Diz que qualquer dia some, vai viver sozinha. Tenho medo que seja verdade, que esta casa fique sem um barulhinho de nada. Se ela for embora mesmo, não vai ser como quando foi a mãe. Já escondi foto dela dentro do travesseiro. Uma recordaçãozinha vou ter.

Zeca Corrêa Leite

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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