Labirinto das Letras

Não é o quê, mas quem

Ensaio filosófico – Crônica reflexiva – Ficção científica

Somos espelhos refletindo o outro, ao passo em que também somos refletidos.
A vida, só existe e acontece em razão da comunhão com o próximo.

Há um tempo em que a Terra encontra um meio de livrar-se de nós. Ela de fadigada vomita-nos, sacode-nos e expulsa-nos.
Fico a pensar se num dado momento ela venha a nos engolir ou talvez simplesmente nos atire para fora de si.
Imagino se acaso restasse apenas um ser humano, uma só pessoa e sem qualquer predador.

Ficaria tudo o que já estivesse feito e construído; haveriam casas e hotéis de luxo só para essa pessoa. Carros e combustíveis abundantes. Mas até quando tudo duraria?
Será a Terra sentiria-se mais aliviada e leve? Tenho cá minhas dúvidas pois creio que jamais sentira-se matematicamente mais pesada.

— Mas como não? — Você perguntar-me-ia – Não percebe quantos arranhas céus, usinas, casas, pontes foram aqui edificados? Quantos trens, caminhões e outros veículos por aqui trafegam? Tudo isso não pesa não? – Asseveraria ainda você .

Eu particularmente calculo que não, porque nada disso veio de fora da Terra, é tudo produto dela mesma, tudo o que existe nesse sentido apenas fora modificado pelo homem. O que está sobre a Terra veio dela mesma, então nem um gramo fora alterado.

O que questiono é outra coisa, pois sei que tudo o que há agora um dia irá acabar sendo assimilado pela própria Terra – Ela deu ela tira.
Mas de qualquer forma enquanto houver uma certa fartura e conforto, será essa única pessoa feliz? Tomemos em conta a liberdade.
Essa pessoa remanescente terá toda a liberdade jamais experimentada, já não haverá o direito do outro, pois não haverá o outro logo, nem razão para leis, regulamentos, normas éticas ou morais, tudo lhe será permitido.

Partindo daí agora eu pergunto:
A despeito da enorme quantidade e variedade de veículos automores e combustíveis de sobra, ela irá para onde? Em busca ou ao encontro de quem?
Ela terá todas as mansões e palácios da face da terra, mas com quem os habitará? Com quem dividirá os espaços?
As lojas das mais finas estarão todas abertas, mas para quem ela se vestirá? Para quem se perfumará?
A quem ela desejará? A quem ela esperará ao fim do dia? E quem também a esperará?
A quem serão seus pensamentos? Com quem partilhará suas conquistas e seus medos? Ainda terá razão e espaço para a alegria? E a felicidade? Alegria e felicidade são sentimentos solidários, nunca solitários.
Se médico, a quem curaria? Se escritor, quem o leria?

Não consigo conceber a existência e permanência plena de um homem só. A existência vital é fundada no compartilhamento, a vida é (com)partilha – (partilha)com onde o “com” denota haver mais alguém.
Somos espelhos refletindo o outro ao passo em que também somos refletidos.
A vida só existe e acontece em razão da comunhão com o próximo.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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