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…E a Alma nasceu no lixo, de Jorge Luiz Borges do Brasil

Era uma vez num reino encantado…
Era para começar assim este conto, mas começará exatamente ao contrario.
Era uma vez, um vilarejo qualquer, as margens de um lixão, neste lugar miserável e triste que uma menina veio ao mundo, seu nome era Alma, pele macia, mas já maculada pelo vil submundo da sociedade voraz e cruel.
Sua mãe, catadora de papel, mal falada e vagabunda, o seu pai, catador de papel embriagado e drogado;dois adolescentes, meninos de rua, sem eira e sem beira, sem família, sem passado (Todo o ser humano tem que ter um passado, seja bom ou seja ruim, o passado é a sua própria identidade), conheceram-se nas escuras vielas do lugar, e inconseqüentemente uniram-se e desta ligação mal concebida que Alma chegou a este mundo, hediondo e triste.
A menina foi crescendo naquele lugar, imundo e sem nada ee bom para oferecer, seu pai acabou morrendo baleado, e sua mãe perdeu-se na prostituição das vielas da cidade…

Alma foi crescendo de mão em mão, comendo restos dos outros, e quando tinham, tentando ser pura, nas nódoas da sociedade, ora numa instituição — olha que até teve sorte comparada aos pais — ora noutra, onde acabou conhecendo um adolescente, do mesmo mundo dela, e foi assim, igual a seus pais que eles se uniram, e foi assim que ela se tornou mulher.
Alma teve filhos, uma pequena evolução para melhor, mas seu mundinho continuava o mesmo, ela diarista, e ele biscateiro; e sempre as mesmas pessoas a passarem por suas vidas vazias.
Os filhos foram crescendo, e um a um a se perderem nas vielas desconhecidas da vida. Um morre baleado na frente de um bar qualquer, o outro morre na prisão; a filha prostituta e drogada sai do lugar. No final os poucos que sobraram perdem-se no mundo. Seu marido, carroceiro e catador, igual ao pai de Alma, acaba conhecendo uma fulana igual a ele; e vão embora, e novamente a mulher fica sozinha, nunca mais vai ter noticias do infeliz.
O tempo foi passando… Passando num tic tac monótono e letal… Alma vivendo de seus restos do passado, aos quarenta parecia ter sessenta, boa costureira a mulher afinal era, mas seu trabalho não passava de dois ou três trocados, uma bainha aqui, um fecho éclair trocado lá, um cerzido acolá, e assim ela foi levando sua vida de subsistência, vazia e sem amor, e sem sonhos também, pois nem sonhar mais a infeliz sabia.
E derepente chega o entardecer de sua existência; coitada da infeliz, viveu por nada e por nada foi embora da terra, e agora lá estava ela, alheia, enterrada num campo santo qualquer…
…E a Alma nasceu no lixo, saiu do pó sem nada, e ao pó retornou…

Esta estória é uma anti-fábula, que na percepção do autor, mostra a amarga realidade do Brasil, esta cruel desigualdade social que torna o sofrimento de seu povo, um sofrimento sem fim e sem esperança.

Jorge Luis Borges do Brasil

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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