Caminhando Sem Passos
Fluxo de consciência – Diário – Poética
Mas o que dizia é que eu o poeta do nada, o homem rés do chão, estava ali sem limite, sem demarcação, doutrina nem disciplina, sem ponto de partida nem de chegada.
Na Maravilha do Atlântico Sul estou há duas semanas e sequer pisei na areia de suas praias, a bem da verdade nem de casa saí. Será perdi meus passos? Se “o caminho se faz ao andar”, então já não há caminho.
Ainda lembro, há um tempo atrás, eu jovem cansava-me, esgotava-me a caminhar com ou sem destino, quase sempre sem ele.
Eu caminhava de qualquer modo e sob qualquer pretexto, eu caminhava mesmo de nenhum lugar pra lugar algum.
Na alta madrugada então sentia os primeiros sinais da fadiga física. Era já madrugada como só as madrugadas podiam ser.
E eu seguia só, quase sempre quase só, estávamos a madrugada e eu; confesso que mantínhamos um caso, a madrugada e eu.
Era um caso escancarado, flagrante, público e escandaloso. Primeiro, sem qualquer aviso, ainda nem existia o tal telefone celular, ela chegava e envolvia-me em sua sombrinha de noite e depois, da forma mais despudorada possível ao seu porte e suavidade engolia-me. Então sem mais atinar, e nunca fui bom com esse crime de atinar pra coisa alguma mesmo, extasiadamente a penetrava de corpo inteiro. Depois… bem isto é outro assunto.
Muito cansado das pernas adentrava meu recinto sagrado, meu lar, quase sempre um quarto de pensão ou um apartamento emprestado. O local onde eu viesse a morar isto não importava-me, já que o sentido de lar ia sempre comigo de algibeira, se necessário se fizesse até embaixo de uma ponte ali o estabeleceria. O lar é o pertencimento, já a casa até a dona lesma tem uma sobre suas costas.
Ei caro leitor, cara leitora, por favor puxe-me a orelha pois divago muito, meu cérebro e minha memória vivem em conluio fora do tempo, minhas idéias presentes misturam-se às reminiscências sem qualquer culpa ou resquício de assertividade tudo num só tempo-agora e espaco-aqui, daí que viajo muito e geralmente afasto-me ao longe da rota inicialmente prevista. Mentira nunca tracei qualquer plano, não acerto-me com mapas ou coordenadas, se eu der um giro em torno do meu próprio corpo pronto, estou perdido. Vivo sempre em rota de colisão, se fosse eu um astro o universo já teria voltado ao caos primordial.
Mas o que dizia é que eu o poeta do nada, o homem rés do chão, estava ali sem limite, sem demarcação, doutrina nem disciplina, sem ponto de partida nem de chegada. Aliás nunca cheguei assim de chegar nalgum lugar, eu apenas surgia como se do nada. Bastava estalar os dedos e lá eu aparecia como desaparecia, noutro dia te explico como se faz isso.
Olhei para o quarto, de suas paredes vertiam orgasmos de paciência quando em seus surdos diálogos com o tempo. Sim pois ninguém compreenderá melhor o tempo do que a rítmica anciã Nossa Senhora da Paciência, comumente conhecida também por Santíssima Imaculada Mãe do Tempo Primogênito.
Mas a argamassa das paredes pela paciência de sua quase imobilidade, faz frente ao tempo pelo fato de que mudas, as paredes, ouvem com uma desmesurada precisão e alcance. Quantas histórias segredadas ali resguardam… Quantos sentires por sua cal fervilham, tressandam …
Ainda em pé sobre as pernas olhando parva e perdidamente entre os poros ligados no barro dos tijolos, sou apresentado à bastarda filha Saudade, ela é a irmã apócrifa do Tempo. Está certo que ela é assim digamos mais carnalizada, mas não fosse ela, quem registraria do Tempo os seus feitos e efeitos?
Chacoalhei a cabeça até ouvir o ranger dentário das minhas cerebrais engrenagens quando uma palavra acudiu-me à superfície: botas. Isto mesmo tirei as botas, botas pretas. Primeiro o pé esquerdo com a mão direita, depois o direito com a mão esquerda, talvez não necessariamente nesta mesma ordem e método (risos de debilidade de orelha a orelha passando centralmente pela boca).
Despí-me da camisa, camisa preta. Primeiro uma das mangas longas e depois a outra. Sempre indagara por que não tirar as duas de uma só vez? Talvez hábito. É o hábito onde habito e movo-me.
Imediatamente a seguir desafivelo o cinturão e desço a singular calça preta. Agora a cueca… Espera aí, você vai continuar olhando? Aqui há um muro de milenar contenção edificado sob as penas em todas as cores, formatos, preceitos, dogmas e texturas desde a terra média. Agora que você já sabe vire-se para o horizonte. Apenas uma pista darei: é branca (risos sonoros de estalagnite).
Desde o alto da compadecida cabeça observo meu corpo de cima pra baixo. Corpo magro, franzino, suado de cansaço entre pêlos (óh céus!)
Um banho far-me-á muito bem. Um banho com água daquela que escorrendo a cor devolve-me. Um banho frio tal qual a cara das pessoas com quem cruzei nas ruas por onde andei, por quantos continentes e em todos são iguais. Salvo por aquele homem com sua mulher presa, ele ficou haviam nove passos de distância a observar-me detidamente à altura da cintura por uns bons e longos e nove minutos ligeiros. Ele sem qualquer preocupação nem pudor olhava-me nada dissimulado. Nada dizia ou exprimia apenas me olhava com olhos de mar-peixe-rebentação. Senti-me algo incomodado ao ponto de despir-me ali mesmo em meio ao passeio daquelas surdas inauditadiantes palavras. Até pensei em descortinar-lhe alguns de meus mistérios, mas refleti e não. Todo mistério desfaz-se na mesma medida em que for desvelado. Não, não vou imiscuir-me em seu devaneio. E afogueando ainda mais a sua agonia, recompus-me a andar. Lenta e indutivamente circundei a mais pujante das árvores na Praça Osório e o vi passar quase à minha frente e de olhos perdidos se fora (ri do nariz ao queixo).
Mas aqui onde moro agora, agora porque o amanhã já não o sei, contemplando da janela a chuva fria, fria e fina; fria, fina e rala; rala, rara e lenta; acurei o olhar para a capivara que sob o beiral do telhado imóvel e meditativamente aguardava pelo estiar.
Pensei cá com meus botões de mim para comigo, que se não estivesse a chover iria à praia. Apesar da praia ser especialmente tão bela nos dias de chuva, além do bônus da quase completa exclusividade dos espaços. Mas o frio, o tremor, o arrepio, a roupa molhada, a gripe, o vírus (ri quase de forapradentro). Será que o vírus trabalha em certos dias de chuva? Que chato ele e sua vidinha…
Pensando bem não estou com vontade de caminhar, pelo menos não fisicamente. Mesmo que paradoxal pareça, eu tenho caminhado muito ultimamente, tenho ido a tantos lugares, falado a tantas pessoas, e às vezes até mesmo sem um banho. Por exemplo, ontem sequer lavei o rosto ao levantar, comecei a escrever ainda na cama, e de lá até a escrivaninha dão quando muito nove rápidos passos esgueirando-me nas chinelas.
Caminho, caminho muito tal qual o fazia antigamente ou até mais ainda, a notória diferença é que se antes meus passos deixavam rastros, hoje só deixam dados. Até mais ver!
luizbucalon