Minha Poética

Um banho profundo, de Luiz Bucalon

Poema sobre a vida (comentado)

Afasto minhas roupas para entrever
A eternidade…

Por baixo da pele há uma outra pele

Afasto minhas roupas para entrever
A eternidade de juventude e lateral
A ereção precipitada de sonhos e divagares ao vento intempestivo

A água fria sobre a carne eriça meus pêlos, comunica meus poros
Ardem lembranças sob a alma do dia
Dentro do choque milimétrico da pele primeira

Por baixo da pele há uma outra pele
A textura aveludada da pétala rósea
Recobre esssa doce floral camada
Marcada de pruridos ancestrais ocultos em tempos de silêncios estelares

Por baixo dessa pele ainda há uma outra pele invisível ao olhar de toque
É um aroma de almiscarada doçura e palidez translúcida e planetária

E por fim uma outra pele incolor, inodora e atemporal
Um tecido de pulsos e pulsões, de dores refinadas de espírito
Algum acontecimento sub-gênese e akáshico registro

Sob a pele da pele da pele uma porção vertical de carne dura carne
Onde resguardam-se fardos de espinhos cegos e claudicantes

Noutra carne colada à carne um antropofágico desejo remonta
Na devassidão das eras, na vastidão dos espaços intra e supra solares

Depois vêm os ossos edifícios assombrados de teias e palcos
Sombreados por teares e fios que tramam a tecitura de homem
Pedras clamam águas fendidas mares passados salobros, insalubres

E por fim e ao fim de tudo bem pra lá do fim conhecido e quebrantado
Reluz uma pérola forjada na ira de monges medievais
Anseios terra média entre fogos violáceos e fornalhas de lastro onde os calores ondulam adiante e acima do simples sentir palpitante.

Nota do autor:
Quando nos despimos de tudo. O despir-se de crenças, opiniões, convenções, filosofias e regras até que tornemos ao nada ou à base de tudo. O ressurgimento do ser ancestral ainda antes do estado hominal. 

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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