Minha Poética

Cavala Desabalada, de Luiz Bucalon

Poema sobre a vida (comentado)

à cama é sempre noite trespassada de sonhos perpassando o sono…

O colchão coagulando gôzo e anseios de uma noite ainda infinda

Olho a cama desarrumada de sonhos
Os lençóis amarfanhados desejos puerís
Travesseiros transpassados de dentes rígidos de chôro
O colchão coagulando gôzo e anseios de uma noite ainda infinda

Qual era mesmo o nome de meu amor?
Paira entre as dunas da mal passada noite seu nome
Talvez Maria, Tereza ou Joaquina quê importa?
Bem poderia Madeleine ou Elizabeth
Quiçá Beatriz, Marília ou Dulcinéia

Vale sim pelo amor escorrido entre as frestas da solidão
Ainda assim sob o mesmo ponteiro a golpear pontiagudo meu peito sangria
Um soluço gemido de espasmo e dor entre os dedos do corpo

Na sua história marido, filhos, irmãos se vão?
O doce acre odor estampado nas narinas
O coado som de lavas eruptas e vulcânicas petrificam o chão de ontem

A rubro-negra rosa dos ventos balançada de tempestade incontida
Cavalgando ainda passa montada de brisa em punho
Óh amazona celeste de botas longas
De soltos cabelos véu em noites de revoltosas ondas de marfim

Volto à noturna cama de sonos recorrentes, madrugadas reticentes
Pois que no final obscuro das contas
à cama é sempre noite trespassada de sonhos perpassando o sono inerte e de si inconsciente, alheio e forasteiro.

Nota do autor:
Aqui a cama, o travesseiro, os lençóis, a noite, o sonho e o gozo  tomam um sentido ampliado quando comparados a espaços embebidos em sentimentos e emoções. São lugares por onde passei física ou psicologicamente. As mulheres são pessoas ou sentimentos e pensamentos personalizados. "Maridos, filhos, irmãos" são as derivações de todas as experiências vividas até então. "Frestas da solidão" é o sentimento de solitude apesar da multidão. Soluços, espasmos, gemidos são marcas de prazer e de dor adquiridas na caminhada. "amazona celeste de botas longas", é a representação da noite e seu mistério embriagados de pessoas, gestos e desejos. "Volto à noturna cama de sonos recorrentes, madrugadas reticentes", este é o meu retorno aos meus dias físicos permeados por planos, expectativas  , e momentos sombrios. "Cavala Desabalada" será encontrado ainda em outros poemas metaforizando a minha existência própria. 

luizbucalon

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Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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