Narrativa de ficção

Ele Decide Morrer

Conto filosófico – Prosa reflexiva
Morrer é um embarque para qualquer lugar...

Quem sabe tenha descoberto assim, antes mesmo dos mais sábios e doutos do mundo, que a vida é apenas uma realidade invertida. E por tudo e por isso mesmo Ele decide morrer.

Ele decidiu morrer. Morrer seria um embarque para qualquer lugar ou não-lugar, nada importa quando não se sabe o destino. Talvez o único e final destino seja mesmo o não-lugar, e então ele abria mão da idéia de destino como compromisso e norte.
A morte seria antes um sem-norte. Não preparou as malas nem juntou bagagem, pois afinal onde daria ele? Isto também não se perguntava.

Sentiu Ele então uma aconchegante liberdade de algodão doce, cashemere, uma leveza de pluma, um frescor de brisa noturna primaveril. Ele estava feliz com a idéia da partida, era como se deixasse a cruz e tudo o que ela implica e simboliza. Era como se atirasse o jugo no chão e o ateasse fogo.
Ah! Ele ria! Ria tresloucadamente. Ria desconcertado. Ria, psicoticamente ria.
Ele ria como um louco desvairado, livre e inconsequentemente ele ria. Ria de si, ria do mundo, ria do próximo e do anterior ele ria.
Suas mãos até então tremiam nervosas. Os dedos crispados de raiva. Tudo fôra uma só frustração, nada foi nada daquilo esperado.
Ele comia-se por dentro começando por morder os próprios lábios ressecados de horror. Uma raiva incontida, implacável que ainda mais se agigantava com o passar dos dias. A raiva tornou-se maior que Ele. Quando percebeu que não trazia em si a raiva, era antes ela que o levava em sua sombra. Sombra espessa, tão escura e tão sólida, uma parede maciça e impenetrável.
Ele era medo. Medo do próprio medo. Estava coxo das pernas, dos braços. Estava cego de todos os sentidos. Uma espécie de ácido desconhecido diluia, carcomia toda a massa encefálica.
Ele decidiu morrer. Quanto alívio! Não ter mais que viver e nem ser dava a ele uma leveza doce e tépida. Era como se toda a paz e alegria fossem originadas no nada. No nada vazio, no nada de si, num vácuo cósmico, universal. Como se um imenso buraco viesse dia pós dia comendo a terra e tudo o que nela pudesse haver. Um buraco negro feroz, frio, inabalável e tão tranquilo, já que no final das contas ele acabaria mesmo por devorar a todos.
Ele vivia pelo medo da morte, então sofria e enfraquecia os nervos, esgotava o espírito e magoava a alma. Ele decidiu morrer e por nada mais lutava, nada mais o perturbava, então descansava e a existência refrigerava.
Talvez o acúmulo da raiva, o excesso do medo era tudo um potente rolo compressor eliminando, dizimando a vida-morta e descortinando a morte-viva. Quem sabe tenha descoberto assim, antes mesmo dos mais sábios e doutos do mundo, que a vida é apenas uma realidade invertida. E por tudo e por isso mesmo Ele decide morrer.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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