Seara de Mortos-Vivos
Artigo de opinião – Prosa crítica
(Referente à morte de Genivaldo de Jesus Santos, homem negro de 38 anos após uma abordagem realizada por policiais rodoviários federais, executado numa câmara de gás improvisada num camburão no município de Umbaúba, litoral sul de Sergipe, entre outros casos).
Quando dezenas de pessoas indefesas são sumariamente executadas…
Quando um rapaz já rendido e sem reação tem sua carne fustigada por um cacetete policial…
Quando um homem é executado numa câmara de gás improvisada em um camburão…
Quando… Quando… Quando…
Enquanto uma multidão assiste e nada faz além de filmar…
Enquanto uma sociedade irreativa e apática também nada faz além de comentar…
Alguém terá a medida exata do conformismo e da passividade que nos dizima e mata?
Se nada disso nos comove, se nada disso não nos causa indignação…
Se tudo isso nos parece longínquo, distante o bastante para que não sejamos atingidos…
Se apenas falamos como se num fato corriqueiro enquanto fechamos a porta e dormimos o sono dos inocentes…
Então o nosso estado é grave-gravíssimo, nos encontramos terminalmente doentes, coxos e imbecilizados…
Dementes, descerebrados e alienados estamos todos nós ao nos pensarmos diferentes…
O outro e eu… Ora quem será o outro senão o mesmo eu em outro corpo, situação e circunstância?
Enquanto uma só pessoa for desrespeitada em sua dignidade, em seu direito à vida, então todos seremos aviltados, vilipendiados e escarrados…
A verdade é que um pouco de cada um de nós morreu naquele instante naquele morro, naquela cidade, naquela viatura…
E seguirá morrendo uma parte de nós todos os dias até que nada mais reste além de corpos vazios, bonecos fantoches e espantalhos na lavoura do esquecimento de quem outrora fomos.
luizbucalon