Labirinto das Letras

Seara de Mortos-Vivos

Artigo de opinião – Prosa crítica

(Referente à morte de Genivaldo de Jesus Santos, homem negro de 38 anos após uma abordagem realizada por policiais rodoviários federais, executado numa câmara de gás improvisada num camburão no município de Umbaúba, litoral sul de Sergipe, entre outros casos).

Quando dezenas de pessoas indefesas são sumariamente executadas…

Quando um rapaz já rendido e sem reação tem sua carne fustigada por um cacetete policial…

Quando um homem é executado numa câmara de gás improvisada em um camburão…

Quando… Quando… Quando…

Enquanto uma multidão assiste e nada faz além de filmar…

Enquanto uma sociedade irreativa e apática também nada faz além de comentar…

Alguém terá a medida exata do conformismo e da passividade que nos dizima e mata?

Se nada disso nos comove, se nada disso não nos causa indignação…

Se tudo isso nos parece longínquo, distante o bastante para que não sejamos atingidos…

Se apenas falamos como se num fato corriqueiro enquanto fechamos a porta e dormimos o sono dos inocentes…

Então o nosso estado é grave-gravíssimo, nos encontramos terminalmente doentes, coxos e imbecilizados…

Dementes, descerebrados e alienados estamos todos nós ao nos pensarmos diferentes…

O outro e eu… Ora quem será o outro senão o mesmo eu em outro corpo, situação e circunstância?

Enquanto uma só pessoa for desrespeitada em sua dignidade, em seu direito à vida, então todos seremos aviltados, vilipendiados e escarrados…

A verdade é que um pouco de cada um de nós morreu naquele instante naquele morro, naquela cidade, naquela viatura…

E seguirá morrendo uma parte de nós todos os dias até que nada mais reste além de corpos vazios, bonecos fantoches e espantalhos na lavoura do esquecimento de quem outrora fomos.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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