Minha Poética

Apreensão, de Luiz Bucalon

Poema sobre a vida (comentado)

Tudo seria tão mais fácil se com um grito ou uma pedrada eu quebrasse a imagem que carrego em mim.

Apreensão é a resultante de um misto de sensações confusamente perturbadoras que assolam-me o peito.
Medo, indignação, alegria, dor, abandono, solidão, gratidão, prazer e compaixão tudo envolto sob um véu de ilusões tardias… É o que suscita-me o choque intempestivo da imagem externa do mundo em contraposição à minha mais íntima imagem.
A apreensão é o sentimento maior a suspender-me acima e afora da razão, avariando todo o instrumental dos sentidos engolfados no sem-norte das emoções.
A minha apreensão advém de uma ânsia extremada e de uma segurança estremecida; uma nuvem sobre a mente nebulosa.
Vivo apreensivo por entender sem que possa explicar, mas aí é que se encontra o xis da questão: entender para mim já é uma raridade.
O fato é que o meu estado de apreensividade é agudo, crônico e quase degenerativo. Sofro por não entender e ao entender, por não explicar e ao explicar, e como se não fosse o suficiente, ainda sofro na iminência do resultado final. Mas a minha apreensão vai além do suposto resultado final. A vida é um processo num eterno vir-a-ser onde uma razão suscita à outra, e é assim que deve ser, já que um processo finalizado é um processo que deixou de existir ou pela falta de demanda ou pela ausência da razão de ser.
E quanto mais eu penso ainda mais apreensivo apanho-me. Tudo seria tão mais fácil se com um grito ou uma pedrada eu quebrasse a imagem que carrego em mim, e simploriamente apenas adotasse a imagem externa assim como a um modelo, um amuleto internalizado, aí então tudo ficaria tranquilo e voltaria-me a serenidade.

Nota do autor:
Normalmente passo as horas trabalhando, aprendendo, compreendendo, rindo. Penso muito também, pelo menos acho que penso (risos), penso positivo e sou otimista. Mas não nego que por trás de tudo, por baixo de toda essa casca passa-me um turbilhão de sensações e as sinto no estômago, algo parecido ao medo mas que não chega a ser mesmo medo, as chamo de "apreensão". É um sentimento de que algo pode dar errado ou pode até simplesmente não dar. É uma coisa que me põe inseguro, tipo "algo está para acontecer", você já deve ter sentido isso, diga lá! Essa sensação é subcutânea, segue por baixo de tudo e quase que imperceptivelmente envolve-me num pessimismo, numa irritação, numa tristeza mas que também não é bem isso. Quando estou apreensivo estou no modo "metade" e tenso de doer os nervos e nem sei por quê. 

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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