Lágrimas de Sangue
Crônica – Manifesto –
Vejo mãos separadas, arrancadas dos corpos, jazem no solo duma terra vermelha, e ainda assim unem-se numa prece de silêncio e dor.
Estou mortificado, morro um pouco mais a cada morte, a cada disparo atingindo seu alvo sou atingido aqui. Outra parte e outra parte de mim cai nos campos e nas cidades.
Repudio todas as razões já sem razão, repudio todos os interesses subjacentes e já sem porquê.
Isto é uma praga, um vírus, uma dor subcutânea, um mal caminhando sob a epiderme da carne. A alma dói num corpo descarnado, os ossos doem estilhaços de fuzís.
A ignomínia pestilenta se espraia sobre os homens esquecidos de si mesmos, de sua origem e destino.
Morre mais uma parte de mim e outra parte e mais outra parte até que não sobre mais nada.
Vejo mãos separadas, arrancadas dos corpos que jazem no solo duma terra vermelha e que ainda assim unem-se numa prece de silêncio e dor.
Minhas crianças hoje não correm mais pelos jardins e nem correrão pois já não existem flores, e se elas existissem ainda não mais haveriam olhos nem dedos de crianças para sentí-las, pois nada sentem. Não há como sentir, não há o que sentir, nada mais faz sentido.
Estou entre pasmo e atônito, aturdido e imbeclizado e faço parte deste exército de zumbis marchando sem norte nem porquê.
Se nunca compreendemos o sentido da morte é porque jamais acariciamos o real sentido da vida, então morremos e matamos nesta mesma ordem, porque só os mortos matam vivos, é o resgate da morte sobre a vida, é o império e a indústria da morte, e já não sentimos porque não há vida suficiente para sentir o que não faz sentido.
luizbucalon