Labirinto das Letras

Lágrimas de Sangue

Crônica – Manifesto –

Vejo mãos separadas, arrancadas dos corpos, jazem no solo duma terra vermelha, e ainda assim unem-se numa prece de silêncio e dor.

Estou mortificado, morro um pouco mais a cada morte, a cada disparo atingindo seu alvo sou atingido aqui. Outra parte e outra parte de mim cai nos campos e nas cidades.
Repudio todas as razões já sem razão, repudio todos os interesses subjacentes e já sem porquê.

Isto é uma praga, um vírus, uma dor subcutânea, um mal caminhando sob a epiderme da carne. A alma dói num corpo descarnado, os ossos doem estilhaços de fuzís.
A ignomínia pestilenta se espraia sobre os homens esquecidos de si mesmos, de sua origem e destino.
Morre mais uma parte de mim e outra parte e mais outra parte até que não sobre mais nada.
Vejo mãos separadas, arrancadas dos corpos que jazem no solo duma terra vermelha e que ainda assim unem-se numa prece de silêncio e dor.
Minhas crianças hoje não correm mais pelos jardins e nem correrão pois já não existem flores, e se elas existissem ainda não mais haveriam olhos nem dedos de crianças para sentí-las, pois nada sentem. Não há como sentir, não há o que sentir, nada mais faz sentido.
Estou entre pasmo e atônito, aturdido e imbeclizado e faço parte deste exército de zumbis marchando sem norte nem porquê.
Se nunca compreendemos o sentido da morte é porque jamais acariciamos o real sentido da vida, então morremos e matamos nesta mesma ordem, porque só os mortos matam vivos, é o resgate da morte sobre a vida, é o império e a indústria da morte, e já não sentimos porque não há vida suficiente para sentir o que não faz sentido.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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