A Boa Nova, de Luiz Bucalon
Deus revelado no homem
É uma grande notícia
Pode ser boa
Como pode ser ruim
Boa por conscientizar
Do próprio poder em nós
Ruim pela responsabilidade
Que tal revelação nos dá
O homem foi educado
Para ser sempre menos
Menos adulto e menos capaz
Nos apresentaram um Deus
Estrangeiro a todos nós
Um Deus distante inalcançável
Inatingível forasteiro intangível
Então nos vendem passagens
Para chegar até Ele
Interessante esse negócio
A gente paga adiantado
Pago em vida para o pós morte
Para se chegar a Ele
O homem criou a Deus
À sua própria imagem
À sua semelhança
Um protótipo de Deus humano
Dotado dos piores sentimentos
Irado ciumento inseguro autoritário
Possessivo arrogante e tudo o mais
E tudo aquilo do homem carnal
Um Deus a quem é preciso pedir
Rogar implorar e se humilhar
O Deus dos fracos e impotentes
Dos imperfeitos e condenáveis
Um pseudo pai que julga
E condena à danação eterna
Um Deus obscuro mórbido e taciturno
O Deus do apocalipse e do armagedon
O Deus do juízo final e do ranger de
dentes
O Deus que aniquila e dizima
O Deus que necessita de misericórdia
Para atender a seus filhos
Mas será o homem quer um Deus real?
Um Deus que lhe dê total livre arbítrio
Que lhe faça crescer e ser responsável
O Deus da liberdade da emancipação
Será que o homem verdadeiramente quer?
Logo o homem treinado a apontar o
dedo
Aquele que justifica os seus fracassos
Busca culpados por seus próprios erros
Que enxerga acusa julga e condena
Um homem que dá à sorte e ao mau agouro
Todos os seus méritos deméritos e delitos
Aquele que nada assume como seu
O conformado concordante obscurantista
O eterno adolescente juvenil delinquente
O homem prostrado eternamente vazio
O que lava as mãos no sangue do Cristo
O homem que ainda crê no holocausto
E crê que ainda em tudo há ritual e sacrifício
Um ser que guarda em seus porões
Verdadeiros e putrefatos sepulcros
Então lhe é cômodo um Deus exterior
Pode esconder maquiar e ocultar-se
Poderá um Deus internalizado ser interessante?
Um Deus onipotente onisciente onividente
Um Deus que caminha junto tão junto lá dentro
Um pai que cresce quando o filho cresce
Será interessante ao homem um Deus assim?
Um Deus que não nos torne em párias
Em massa de manobra do sistema terreno
Um Deus livre de crenças dogmas e liturgias
Um Deus liberto de rituais e cerimônias
Um Deus que não nos cobre requisitos filiais
Será que o homem aceitaria?
Um Deus sem cruzes ou mistérios
Um Deus de luzes sem impérios
Será? Será? Será?
Estará o homem preparado?
Quantos ficarão desempregados
Sem primazia sem pompa ou potestades
Quantos edifícios ruirão sobre si mesmos
Estará o homem apto à nova era
Sem catedrais mesquitas e sinagogas?
Poderá ele erigir sua mais íntima igreja?
Poderá o homem fazer e ser diferente
Poderá o homem ser seu próprio juiz?
Já não poderá negar ciência da verdade
Nem esconder ou esconder-se dele mesmo
Suportará o homem saber que tudo é seu?
Que está tudo em suas mãos e de ninguém mais
Que não haverá mais culpados ou inocentes
Poderá ele responder por seus próprios atos?
O homem terá que amadurecer maturar
Terá que renascer e se elevar
Abandonar o infantil sistema de recompensas
Nem para o céu nem para o inferno
Mas para dentro de si mesmo
Onde nada nada é impune
Onde tudo que vai inexoravelmente volta
Uma emancipação livre e responsável
Suportará o homem a tal Boa Nova?
luizbucalon