Caminhante, de Isa Ravacci
Sou caminhante sobre relvas e pedras
quis que me fizesses companhia
cresceu-me tão grande amor no peito
que, nem mesmo eu, pude suportar
e tive de me suprimir
dado à distância, aos impedimentos e às ausências.
Se sou assim tão contraditória
é porque tenho os pés calcados no chão
e a cabeça nas nuvens.
Mas não te enganes:
posso caminhar dias sem descanso,
posso carregar o maior amor do mundo
dentro do meu peito
e, mesmo assim, nunca me deter
porque o meu ofício é correr a vida
extrair o sumo do mundo
para transformar em poesia.
Não sei quantos cânticos cabem em minha boca
ou quantos versos cabem em meu alforje,
não me compete contar, senão histórias.
Sou uma poetisa em constante movimento
nunca me sobra tempo
para bater o pó de minhas sandálias.
Não carrego cajado ou bordão
porque não sou pastora de ovelhas
sou apascentadora de palavras
sonhando vegetação verde no solo de minha Língua.
…E se ainda aceitares a minha companhia
saiba que andarás por esses mesmos caminhos
ouvindo os pássaros e os mesmos passos
deixando que a chuva lave
os teus cabelos e pecados.
E ao fim de alguma tarde
quando estivermos frente a frente
com os olhos mergulhados uns nos outros
vamos rir os nossos risos mais sonoros
zombar do nosso profundo cansaço
vamos nos dar as mãos
e rodopiar ao infinito.
Aí então, desatarei os cânticos em minha boca
abrirei o meu alforje
como quem semeia estrelas
nas pautas de um poema…
Isa Ravacci
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