Labirinto das Letras

Sábado Provinciano

Relato – Crônica – Conto

Resolvemos levar as meninas. Para onde? Para a casa dele, mas o desgraçado me foi morar lá onde o vento faz a curva.

Estávamos lá os quatro, elas duas e nós dois. Sei lá em que idos foi, faz um tempinho já. Sabe aquelas máquinas de música? Aquelas que se botava uma ficha e se escolhia pelo título? Era o que ouvíamos no momento, não sei se Nazareth Raul ou Zé.

A bebida da hora era porta aberta, uma mistura de vinho com Coca-Cola. As meninas assanhadinhas riam; eu não menos apalpava aqui ali e o amigo com aquele olho de peixe morto.

Resolvemos levar as meninas. Para onde?Para a casa dele, mas o desgraçado me foi morar lá onde o vento faz a curva.

Desembarcamos do ônibus; Blumenau quarenta graus; subimos um morro de matar.
Bêbados com duas garotas não menos zonzas a reboque.

Ufaaa! Chegamos! Ele mirou mirou tremeu mirou, acertou o buraco da fechadura. Arrastou-se até o sofá e dormiu.

E agora meu Deus o que faço eu me diga amigo meu? Duas cavalas de mulher à flor da idade à pele e com olhos faiscantes de tesão.

E eu sozinho pois o colega jazia aos braços de Morpheu. Eu franzino, alcoolizado e suado que pra não cair à parede ia encostado; tive que fazer as honras da casa.

E elas não queriam ver a decoração nem meu olhar de paisagem; naquela hora tudo menos preleção.

Eureka! Um banho! Claro um banho! Os três e um box amplo de alegria, encostei-me contra o azulejo e pronto. Mas as duas não estavam pra brincadeira.

Elas avançaram e eu ali semi morto vendo quatro assassinas canibais. Veio uma com a boca cheia de dentes; nunca vi tantos numa só boca.

A outra parecia-se mais a um polvo! Sabe oito tentáculos assim? E eu menor de idade e trêbado. Salve salve oh pátria amada! Verás que um filho teu varão ainda fode e luta!

E elas persistiam no intento, havia nelas uma vontade puta! Lembro que escorreguei, desci, deslizei parede abaixo em coma. E aqueles dentões e tantas mãos e dedos aos milhares. Línguas pra mais de vinte sei lá…

Morde, chupa, segura, esfrega, pincela, atrita e faísca sob a água. Senta, levanta, encavala e segura. Vi a coisa preta bem na cara; preta, cabeluda e arreganhada.

Maravilha mas não dá não! Duas horas depois acordo. O chuveiro ligado, a porta aberta e as meninas desaparecidas.

Tive até outra chance um mês depois e pra prevenir só tomei leite então…

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *