Poemando o Tempo para Além do Tempo, de Luiz Bucalon
Há! Consolo!
Eu não quero consolo
Nem falem-me tal coisa
Não quero consolar
Não sei consolar
Não sou consolador nem consolável
Quero chorar quero chorar
Chorar até morrer
Numa sangria de lágrimas desatadas desatinadas
Soluçar suspirar suspender o ar
Partir pra algum lugar
Um lugar ao luar
Qualquer lugar solto no ar
Não não venham me consolar
Deixem-me gritar gritar gritar
E até quem sabe arrancar
Expurgar essa dor que dilacera-me o peito
Permitam-me enlouquecer
Embrutecer envelhecer
Não não digam coitado e nem compreendo
Vocês não compreendem nada de hemorragias
Quero morrer hemorrágico esvaído
De sangue carne alma espírito
Quero a morte eterna
A morte da morte da morte
A morte para além da morte
Desaparecer infalível e irreversivelmente
Apagar apagar sem nada mais dever nem devir
Ah quem dera com minhas mãos
Ásperas e claudicantes mãos
Pudesse abrir agora o peito a barriga a cabeça
Ah eu pudesse com essas mãos ensanguentadas mãos
Extrair fígado estômago pulmão e coração
Mas nego-me a apenas morrer
Quero morrer de morrer
Para muito além do simples morrer
Não não tentem me consolar
Não digam que é assim mesmo
Pois não é eu sei que não é
Nem digam-me que ela foi pra algum lugar
Não ela não foi, a morte não é caminho nem caminhada
A morte é só o fim da empreitada
O desaparecimento total irrecorrível
Não não haverá reencontro
Acabou tudo Acabou pra nós
É só memória e estamos sós
Diluídos em poeira orgânica
Mesmo as cinzas que soltas ao vento
Elas se separam e se misturam
Ainda há outras e outras e mais outras cinzas
Na incessante tecitura do tempo
E o tempo… Há o tempo vai consumindo seu rebento
Passo a passo bem lento.
luizbucalon
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