O Ser e o Conhecimento
Ensaio filosófico – Diário -Poética
O conhecimento é a luz da estrela que chega até nós quando a própria estrela já há milhares de anos morrera. O conhecimento causa-me estranheza e ao mesmo tempo contemplação.
Há alguns dias atrás caminhando, revendo e reconhecendo a cidade onde moro agora, e na qual já morei há algum tempo, de súbito tomou-me uma luz.
Você não acredita, esbarrei com o conhecimento! Ele se me afigurou assim numa explosão de poder criativo à velocidade da luz.
Assisti a transfiguração do conhecimento que se revezava em milésimos de segundos. Ali à minha frente e bem diante dos meus olhos, era um belo adolescente num lapso de instante e já noutro se sobrepôs uma linda curvilínea moça de olhos negros e cabelos longos, imediatamente a seguir já era um ancião de cabelos brancos e trajes andrajosos. E as superposições continuavam em flashs endoidecidos; era um homem e muito de repente era multidão. Irrompeu entre nós um equino pardo de farta crina em disparada alucinada; e um bolinho de carne amanhecido, um pedaço de pão adormecido, uma laranja, um pomar e um laranjal, um míssil nuclear de uma guerra ainda vindoura, um automóvel aéreo, uma casa e um avião pegando fogo; tudo no mesmo lugar e quase quase ao mesmo tempo. E pasmem, era tudo isso o conhecimento!
Que coisa mais louca e por isso mesmo inexplicável e inexprimível, é a sensação da proximidade do indizível e talvez inaudito conhecimento.
O conhecimento feria-me os olhos sem o tempo de referir-me à consciência. Tentei pegá-lo numa vã tentativa, ele atravessa-me a pele e as fibras, só um calafrio cortava-me a espinha dorsal. O conhecimento não tem corpo mas tem peso. Ele é e na sequência já deixa de ser, se transforma. Ele é como que uma lógica estrutural embalada dum ilogismo inaugural. É o objetivo por meios subjetivos. É como enlouquecer entre relâmpagos intempestivos. Jamais conhecerei o conhecimento por completo. É a luz da estrela que chega até nós quando a própria estrela já há milhares de anos morrera.
Chacoalhei a cabeça, apertei os olhos, bati os pés no chão e dirigi-me pelo vão da larga porta de uma lanchonete. Já no interior do estabelecimento era puro conhecimento de lá para cá e de cá para lá, vinha o conhecimento tanto de cima para baixo quanto de baixo para cima. O conhecimento causa-me estranheza e ao mesmo tempo contemplação.
Naquele exíguo espaço entre o balcão e as mesas cabiam tantos conhecimentos que desmentiam qualquer medida de tempo e espaço. Mas notei em minhas veias e na taquicardia em meu peito que o muito conhecimento dói. Sim dói, dói da pele à alma, é uma afiada e fina espada que corta quente. O conhecimento de tão feliz gera a infelicidade. Por enxergar demasiado se vê o indesejado. Desconheço totalmente sua medida exata e sobretudo não posso afirmar se o conhecimento traz em si a visão ou se a visão proporciona o conhecimento, de qualquer maneira visão é sempre visão. E a visão do conhecimento ou o conhecimento da visão é por si só tão prazeroso quanto doloroso, e não necessariamente na mesma proporção.
O garçom veio até minha mesa indagando-me cortesmente sobre o meu pedido, sorri-lhe entre aturdido e abestalhado, e debilmente coxo da língua apontei para o menu. Ele parecia entender o estado catatônico em que me encontrava. Pedi também um café, minha voz saiu surda e repeti por três vezes consecutivas. “Já entendi senhor”, sorriu-me ele.
Que mico pensei, só me faltava essa agora. Pude notar que das mãos da atendente escorriam conhecimentos.
O gerente no caixa contava cédulas impregnadas de conhecimento. Pra onde quer que eu olhasse havia conhecimento, até mesmo nos engradados vazios de bebidas. Tudo transbordava conhecimento, de todas as cores e formas, de todos os cheiros e sons.
Bem até que enfim, o conhecimento trajado de garçom trouxe em suas mãos diáfanas e tão efêmeras, em duas voláteis mãos a bandeja de aço inoxidável, embrulhado no conhecimento dos metais, o meu alimento então solicitado.
Agradeci o moço arrastando a cadeira de conhecimentos para junto da mesa. Sem mais demora cravei os dentes onde o conhecimento era também um gosto palatável. Mastiguei lentamente, triturei a cada migalha de conhecimento bem devagar, saboreando cada milímetro, cada gramo de conhecimento, até meu organismo digerir e assimilar toda aquela porção de conhecimento.
Depois enquanto metabolizava tudo aquilo que se me dava a conhecer, divaguei absorto em pensamentos filosóficos.
Olhei para o chão pensando o quanto o conhecimento pode ser surpreendente e interessante… O conhecimento sempre está fora de mim, ele existe, insiste e subsiste dentro-fora de mim, não sei dizer ao certo se há no conhecimento alguma substância que lhe dê corpo.
Inicialmente ele é indivíduo a parte.
O conhecimento deve ser tomado com o corpo inteiro, não só com o cérebro. O conhecimento entra-me muito mais pelo sentimento do que pelo pensamento. O conhecimento não pode ser dito nem explicado pelo cérebro sem que antes seja capturado pelo sentimento do corpo numa cadeia reativa, ele é sentido muito mais do que adquirido. Talvez o significado da mente, seja o puro conhecimento onde o cérebro seja tão só e unicamente um tradutor, um decodificador. Talvez por essa razão eu não vejo a nada que tenha de fato sido criado pelo cérebro única e exclusivamente.
Percebi também que o conhecimento deve ser tomado de bocadinhos, de colherinha rasa, em doses homeopáticas. Ele não pode ser abruptamente engolido com voracidade.
Já conheci muitas pessoas que ao consumir, tomar e possuir o conhecimento de modo guloso e desmedido, baixar às raias da loucura ao ponto de atentar contra a própria vida e também a de outros.
O conhecimento não é dado a conhecer, pois uma vez conhecido deixa de existir como tal até então. Quando conhecido o conhecimento, torna-se ele num só e indiviso com o seu conhecedor.
Em outras palavras, ao tomar o conhecimento que está fora de mim, fora da minha consciência, imediata e impostergavelmente o trago para dentro, e nesta fusão nos tornamos o conhecimento e eu num só corpo, numa só carne e consciência. Consequentemente quando este conhecimento que não tornou-se apenas meu como objeto, mas que já encontra-se misturado ao meu sangue, meus ossos e minhas células desde as mais primárias, chega a ser acessado por outrem ele, o conhecimento, já não é aquele mesmo de outrora ou de instantes atrás, mas a sua mais nova versão, uma nova estrutura em uma nova realidade, pois acrescido de meus próprios conhecimentos anteriores e daqueles tantos quantos que a mim precederam, reconfigura-se num sempre atualizado e revigorado conhecimento.
O conhecimento é vivo, é mutante e move-se de dentro pra fora e de fora pra dentro numa exponência espiralada. Grosso modo todo o conhecimento é tão infinito quanto incessante na circular relatividade de si com o meio onde intermitentemente move-se.
Beirando aí a questão ontológica, já não sei e nem afirmar posso, se o conhecimento pertence ao ser ou se o ser pertence ao conhecimento, se há criatura e criador cada qual a seu turno e razão final; talvez ambas as coisas ao mesmo tempo e lugar.
Empertiguei o tórax ensaiando levantar-me da cadeira na qual jazia o meu corpo há quase duas horas, todo aquele caudal de conhecimento deixava-me profunda e traumaticamente assustado, amedrontado e exaurido das forças, quando uma última, permanente e insidiosa visão ainda assolou-me o espírito: muitos e muitos, milhares de milhares de conhecimentos desfilavam flutuantes por todos os espaços pra onde quer que eu olhasse, ou mesmo imaginasse olhar, a todo o momento, vestidos e investidos de multiplicidade e coloridos inesgotáveis e jamais vistos.
Ao erguer-me para pagar a conta, sobre as pernas adormecidas e formigantes, ainda inalo pelas narinas, pelos olhos, a pele e a boca o olor da pedra de toque, o tropeço na pedra fundamental do conhecimento de toda hora.
Saio às ruas da cidade enfim…
luizbucalon