Labirinto das Letras

Estrangeiro, de Luiz Bucalon

Ensaio reflexivo – Prosa realista – Ficção – Prosa contemporânea

Mas tudo isso é muito estranho… Meu corpo anda por aí arrastando as suas partes, todos o vêem pelas ruas. Mas há algo em mim que sente, que sente que não sente o corpo.

Estou aqui e… Sim eu ainda estou aqui, mas é quase uma verdade também que já não estou. Apalpo meu corpo em suas partes então estou, mas não sinto meu corpo nem as suas partes, então já não estou.
O estar de mim só uma parte põe às claras a outra parte ausente. Sou fragmento, algo incompleto.

Digo algo sem arriscar-me a dizer alguém, pois o alguém é aquele o qual não se toca, é preciso sentí-lo, e é justamente esse ponto que não consigo. Meu corpo e suas partes, esta parte que ainda toco, tanjo e mensuro isto é algo, algo distinto de alguém.
E se tenho-me assim fragmento é porque sou fragmentário igualmente, pois tudo o que meus olhos vêem é só uma parte destacada e distante do todo de tudo. Se toco o mundo à minha volta também o faço só na parte, assim com a ponta dos dedos, nunca de mão cheia.
Às vezes ponho-me a pensar se não sinto, vejo, toco e degusto tudo às avessas; é, talvez eu exista do avesso, e já aí a visão seria antes uma não-visão, o toque um nao-toque, o sentir um não-sentir. Mas dessa forma os meus fragmentos apenas mudariam de posição e eu continuaria fragmento, talvez quiçá virado de dentro pra fora ou de fora pra dentro.
O meu eu nunca se conformará, nunca se completará, jamais estará unificado e uno, falta-me um ponto central, um ponto de partida, um umbigo ou um buraco negro. Talvez uma matriz emanadora, um raio de convergência, uma placa indicativa de sentido, uma viela estreita e compacta, talvez isto sim num abraço apertado trouxesse-me de volta para mim. Quem sabe se existisse uma força de coesão, uma cola cósmica a juntar-me os cacos, a embalsamar-me as feridas, quem sabe uma solda ou uma costura de cicatrizes devolva-me ao todo que fui um dia…
Mas e se por natureza não houver jeito nem atração entre essas minhas partes? E se o sentido das minhas partes for a repelência entre si? Terá sentido? Não importa o sentido, ele nunca vem primeiro. O sentido não nasce da causa, mas do efeito. O sentido não é a razão primeira de todas as coisas, ele resulta apenas do meu olhar das partes ao todo ou do todo às partes. Talvez o sentido não seja uma coisa ou um fato inerente à cada coisa, mas só uma pulsão despertada pelo olhar de quem olha.
É, pode ser mesmo, quem sabe eu até esteja inteiro aqui e agora, não fosse o fato de sentir que não sinto o meu corpo e as suas partes aqui fora.
Mas tudo isso é muito estranho… Meu corpo anda por aí arrastando as suas partes, todos o vêem pelas ruas. Mas há algo em mim que sente, que sente que não sente o corpo. É esquisito porque quando meu corpo caminha, sei que ele está a caminhar, mas sinto não o corpo nem o caminho, mas o estar em outro lugar.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

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