Amigos Escritores

As Carroças, de Zeca corrêa Leite

Tinha carroças, Vânia, tinha carroças
nos meus tempos de menino.
Tinha sabe o quê? Carroças dos lenhadores
que nos vendiam lenhas a metro.
Tinha carroça dos que carregavam lavagem para os porcos,
carroças novas e velhas, bonitas e feias.
E só hoje vejo que todas elas eram lindas e mágicas
e cantadeiras de um amor feiticeiro
que incendiava os dias de lantejoulas daquele tempo.
Vânia do céu, como tinha carroças e histórias e vidas
dependuradas nelas, espantando cavalos,
descansando ao sol da tarde, guiando os animais para a zona,
vendendo verduras, transportando carvão,
atravessando a madrugada, pisando em pedregulhos e…
Meu Deus, dai-me as minhas belas carroças,
dai-me os castigados cavalos, os gritos dos lenhadores,
das filhas dos lenhadores, o ranger das rodas, as horas,
o cheiro de café torrado em panelões pretos,
cheiro de café passado em coador, fumegando no bule,
nas canecas esmaltadas.
Ah, meu Deus, dai-me o tanque e a água suja das roupas
embaçada de sabão de cinzas.
Dai-me a voz de minha mãe cantando e as cantigas de passarinhos
e latidos de cães e Sônia Ribeiro animando seu programa
na Rádio Record de São Paulo
e tudo e tudo e tudo
que são universos humildes, pequenos, parecendo migalhas
que se perdiam nas toalhas furadas da mesa de minha casa.
Sabe Vânia, esse lugar era bonito e se enfeitava de sol e carnaval
e espiava por vezes a beleza dos artistas pelas páginas
da Revista do Rádio,
e era bom e tinha seus sustos, seus bêbados, suas brigas na rua,
mas era bom, insistia em ser bom, vivia sendo bom.
Debaixo das estrelas, do céu, das lendas, da melancolia,
das rezas, dos anjos e do inferno,
debaixo de tudo isso repousava esse país cálido, perfumado,
com carros e galinhas e boiadas e sineta de escolas
e suspiros comprados na venda.
Repousava esse país das carroças, dos cavalos, dos tropéis,
dos gritos, da linguagem selvagem e humana, do amor dos animais.
E as carroças, ai meu Deus, meu Deus, passavam por nós invisíveis
nas suas fagulhas de fogo…

Zeca Corrêa Leite

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *