Minha Poética

Madalenaelenas, de Luiz Bucalon

Madalena Moça

Madalena era menina
bela menina em graça
e já sentia a fome
e já sentia o fogo
a fome da paixão
o fogo da miséria
na verdade da vida
paixão e miséria
são serpentes entrelaçadas.

Madá como era conhecida
percebia em seu corpo
mudanças primaverís
sinais de vida contida
vida rôta predita
numa caminhada sofrida.

Dia que o sangue descia
escorrendo deslizava
entre as coxas de Madá
agora moça latente já ia
emerge do casulo cinza
no seio da metamorfose
não compreendia bem
leiga acerca de fluxos
jamais soube das borboletas.

Madalena Moça II

Madalena pés descalços
cabelos emaranhados
braços olhos nús
destino solto aos ventos
ignorava o horizonte
o horizonte a descortinar.

Pelos descalabros do momento
Madá saia em busca do santo
do santíssimo pão de cada dia
no lugar do sorriso inocente
só uma fantasia cadente.

Os róseos lábios simbolizavam
plangentes clamores agonia
navalhas cortavam-lhe a alma
encobrindo com carne macia
ela uma simples Madá
numa selva de pedras e aço.

O cotidiano de uma doce rapariga
numa jaula infestada de abutres.

Madalena do alto do morro
vila sem nome bairro da promessa
onde jornal é mais que notícia
é cama colchão teto e cobertor
o banquete à boca do lixo
é lauto entre galinhas azuis
no zumbir de moscas e outros bichos.

Madalena Moça III

Dia sim dia não
Madalena a meditar
como será o alvorecer?
Um dia irei me casar?

Madá era tão jovem
as horas tão curtas nos deleites
intermináveis nos dissabores
um caco de espelho reflete
o esplendor tez doirarada
ofuscada sob o contraste
de olhos já tão amargurados
mas a noite por vir
ninho de angústias a referir
angústias só dela
da meiga e pobre Madá.

Da escuridão urge o brilho
uma vaga luz de vela
Madá deita-se abandonada
à pacífica sorte do sonho
mundo em que ela ressurge
coroada de flores
vestida de branco
ali uma Ninfa do lago
ruma ao Olimpo em cavalo alado.

Madalena Mulher

Madalena Madá Madalena
nem o sonho terminara
nem da terra prometida retornara
e num denso pesadelo mergulha.

Possessão em seu corpo detonou
sob hálito de aguardente
peças íntimas arrancadas
singelas reentrâncias desnudas
entre uivos e gemidos de dor
seu sufocado grito dentro ecoa
em sua carne outra carne difusa
em sua alma ferro em brasa
dilacerante marca em fogo
semi morta cavalgada
tal égua retida pela crina
encarnados hematomas na pele
mácula negra no espírito
após fatídica luta desigual
a hemorrágica dor defloramento.

Na penumbra o possessor sem rosto
singrou por entre seus vales
embalsamando seus ferimentos
em quente branco viscoso leite
Madalena dorida espavorida mulher.

Madalena Mulher II

Sombras escuras povoam o coração
sentia-se bicho ao rés-do-chão
vazia feito mulheres estéreis
encolhe-se no leito molhado
esperando rogando por compaixão.

Suór lágrima sangue sêmem
alquímica argamassa
o fétido hálito dos lençóis
fecha a nebulosa efêmera cortina.

Sentimentos indignos inexprimíveis
indescritível sensação de vácuo
quem poderá descrever o vazio?
entre as vagas atômicas do abstrato
residem grandes Impalpáveis nadas
sempre um magnífico oceano nada
tragada por implacáveis ondas sufocava.

Madá náufraga em si mesma
Madá perdida sem destino
Madá menina Madá mulher
de mãos dadas tão próximas
separadas por longínquas distâncias.

Madalena das dores laminais
Madalena do impacto rochoso
Madalena imunda pelos tempos
Madalena pela sina marcada.

Madalena Mãe

Madalena busca as igrejas
catedrais templos sinagogas
ouve a padres bispos pastores
rabinos mestres faladores
apedrejada diante do mundo
vagando entre sonhos anseios
soterrada em conceitos imundos.

Mas o filho do homem surgiu
que na infeliz entranha pariu
não ousem atirar uma pedra
Naquele instante seu filho nasceu.

Menino belo fruto do alvorecer
Madalena Madá Madalena
Madalena de fé de luta do morro
Madalena sobrevive de pirraças
nos motéis e bancos das praças .

Nas tetas de Madá corria a força
o maná supremo da vida
no ventre de Madá senhores entravam
logo saiam sem ter despedida.

O pão o leite do ser tão pequeno
sacramentados haviam de vir
não importava a quem ela tivesse
que dar um pouco do seu porvir
impedidos estavam seus juízes.

Madalena Mãe II

Depois do inevitável assalto
rompido seu sonho feliz
Madalena ingênua e de fé
busca o santo pai de santo
promessas de amparo consolo
à tarimba deitou-a de novo
lambuzou-se a noite inteira
em atos de quatro rameira
sodomizada currada dissecada
de manhã soltou-a desarvorada.

Uma dúvida no peito pairou
o filho do homem
do santo ou do obscuro?

Santo mais do que santo era o menino
pois a bem da verdade
todo o santo tem algo de obscuro
senão no seu modo de ser
mas no seu jeito de existir
a santidade sempre fora um enigma
tabú mistificado misterioso.

O menino chora seu chôro santo
quer comer quer dormir
quer tudo mais atenção
Madalena sai em busca do pão.

luizbucalon

Luiz Carlos Bucalon, nasceu em 12 de março de 1964, na cidade de Maringá-Pr. Em 1980, lançou, em edição independente, o seu primeiro livro de poemas, "Câncer Amigo". Seguiu escrevendo poemas, crônicas, contos, ensaios, teatro, humor, biobibliografias e romance. Foram trinta e quatro títulos publicados, pelo então poeta marginal -- contemporâneo a Paulo Leminnski e outros expoentes. Bucalon, além de escritor e editor, foi também declamador, palestrante e divulgador de sua própria obra, de cidade em cidade, no Brasil e na Argentina. Seu mais recente livro, "Só Dói Quando Respiro", de poemas, é de 2021, publicado digitalmente em formato e-book. Obras (muitas também em espanhol) - Poemas: Câncer Amigo, A Palavra é um Ser Vivo, A Corsária e o Vento Santo, Roda Viva, Madá Madalena, Novas Asas, Um Lapso no Tempo, Uma que não vejo, Outra que não toco, Poema a Quatro Mãos (com Nice Vasconcelos), Escrever é coisa de louco, Bailarina Madrugada, Poeta de Ruas e Bares, Poemarte, Na Barra de Santos, Era eu naquele quadro, A Rosa e o Espinho, Dia Noite e Chuva Por onde Andaluzia, Poeta Cigano, Rodoviárias São Corredores, A poesia diz rimada, Poesia Presa no Espelho, Poema se faz ao poemar Poesia líquida é música. - Romance, conto, teatro, ensaio, crônica: Em Busca do Amor, Lânguida e Felina, O Globalicídio Brasileiro, A Semente do Milagre, Mártires da Imortalidade, A vida entre outras coisas, A Praça da República, O Banco da Praça, Ali Naquele Bar. Saiba na página Home.

Um comentário

  • Gediel Pinheiro de Sousa

    Excelente esse poema que traz à toba um tema tão real…quantas Madalenas precisam sentir as mesmas dores nessa sociedade, ainda, patriarcal autoritária.

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